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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

As aldrabices da Demografia.

Segundo as estatísticas, Portugal conta com 517 mil desempregados. Claro que as estatísticas valem o que valem e o número é substancialmente superior. E isto sem contar com empregados em “part time” e com os que trabalharam umas horitas nos últimos meses e com os trabalhadores precários e com os que já nem se dão ao trabalho de se inscrever nos centros de emprego, pois aquilo só serve para as estatísticas ou para atribuir subsídios de desemprego, pois eles não avisam as pessoas no caso de surgir empregos. E sei do que falo, pois já lá tive a minha mulher inscrita e abriu um concurso público na área de formação dela e ela não foi avisada, bem como, após ter arranjado um trabalho temporário, e apesar de se ter inscrito várias vezes após ter ficado sem esse trabalho, de cada vez que ia ao centro de emprego diziam-lhe que ela estava a trabalhar! Passou-se isso quando se inscreveu sucessivamente em Leiria, Coimbra, Viseu e Guarda: apesar de se ir inscrevendo sucessivamente, de cada vez que se ia inscrever diziam-lhe que ela estava a trabalhar em Leiria! Assim se dão taxas de desemprego falsas (como toda a estatística em Portugal, aliás).
Ora, mas eu não estou aqui hoje para discutir as fraudes das estatísticas em Portugal, estou aqui para discutir o desemprego, a imigração, a natalidade, o número de licenciados e as reformas. Tudo coisas interligadas entre si.
Interligadas porque é extraordinário que num país onde se atinge oficialmente uma taxa de desemprego de 2 algarismos, se continue a dizer que a taxa de natalidade é baixa, que os portugueses têm que ter mais filhos para garantir a sua reforma, que temos que importar imigrantes… Tudo balelas! Pois se temos mais de meio milhão de desempregados (oficiais) mais umas centenas de milhares de beneficiários do rendimento mínimo, ou seja, se temos perto de um milhão de pessoas neste país que não têm trabalho, acham que ainda necessitamos de mais gente? Se não há empregos para esta gente toda (mais os que já emigraram), para que querem mais desempregados? A verdade é que esta forma de capitalismo necessita de cada vez menos gente e cada vez lhes paga pior, de forma a criar grandes lucros para alguns, descartando os outros que apenas servem para fazer baixar os salários, por via do excesso de oferta de mão-de-obra. Mas um capitalismo que não necessita das pessoas, tem os dias contados. Quanto às reformas, não são os cada vez mais desempregados que vão pagar as reformas dos que trabalham e descontam. Não é por se ter mais filhos que serão desempregados, que as reformas se vão conseguir pagar, antes pelo contrário, pois estes apenas vão também absorver mais fundos da segurança social, por via das prestações sociais que estes desempregados e indigentes do rendimento mínimo recebem. O problema da segurança social é que o dinheiro dos descontos de quem trabalha é desbaratado com os preguiçosos do rendimento mínimo e das habitações sociais (e o saque dos “grandes”) em vez de ser aplicado até à reforma dos que descontaram. Ou seja, o Estado, ou melhor, estes políticos, criaram na segurança social um esquema piramidal tipo D. Branca em que estarão sempre dependentes que os que entram no mercado de trabalho sejam mais do que os que saem! Só que as contas saíram-lhes furadas, a demografia alterou-se e o esquema faliu… E agora querem muitos filhos e imigrantes, mas já não há empregos para os que cá estão, quanto mais para os que hão-de nascer (caso se voltasse ao crescimento natural da população portuguesa) e para os que querem mandar vir de fora para povoar Portugal (como se o que interessasse é cá ter gente, nem que se tenha que pôr os portugueses fora de Portugal, para que eles se sintam melhor cá e para a nossa cultura não perturbar a deles).
Balela é também a história de querer dar certificados a toda a gente. Como repararam, não escrevi educação, formação, escrevi certificados pois cada vez se certifica mais o que não existe, como é o caso do 12º ano e do ensino superior. Este é o Estado que incentiva os seus a estudarem (bem, estudarem cada vez menos, mas, pelo menos, a andar no sistema de ensino mais tempo), a tirarem licenciaturas (agora mestrados), o Estado que diz que temos poucos licenciados mas que no fim os licenciados não têm empregos. É mais um logro desta república das bananas, que faz pessoas andarem anos e anos a estudar, que faz os pais gastarem rios de dinheiro em quartos, propinas, etc., para depois não ter empregos para licenciados e pô-los nas caixas de supermercado ou ao balcão de uma qualquer Zara ou loja de telemóveis… Este é o Estado que não vendo ou não querendo ver que há licenciados a mais e que há indivíduos que não têm capacidades intelectuais para prosseguir para níveis de ensino superiores, incentiva os jovens a iludirem-se de que podem ser doutores ou engenheiros, ficando o país desprovido de serralheiros, electricistas, pedreiros, carpinteiros, que era para o que uma boa parte dessa malta que pulula no ensino superior servia.
Este é o Estado que reduz as reformas de quem descontou décadas para ter uma reforma, e altera as regras do jogo, para lhes pagar menos e menos, ao mesmo tempo que dá rendimentos mínimos a quem não quer trabalhar ou se preocupa tanto em pôr a mão por baixo a pessoas que trabalharam (ou não) décadas e décadas e nunca quiseram descontar para a reforma um cêntimo. E que ainda têm o desplante de se queixarem das pensões baixas, em vez de agradecerem a esmola que todas as pessoas que trabalham e descontam e pagam impostos, tão generosamente lhes dão daquilo que devia ser seu!
Isto, meus amigos, isto é que me causa dores de morte!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A "tirania" do PIB.

Pretendo um dia dar a minha opinião, neste blogue, acerca da “tirania” do PIB e dos absurdos a que a sua utilização como medida absoluta da qualidade de vida da população de um país podem levar. Entretanto, e enquanto a falta de tempo ou a preguiça me impedirem de explanar por escrito a minha opinião acerca desse tema, deixo aqui um texto da autoria de João Pinto e Castro - Director Geral da Ology e docente universitário – que me pareceu bastante interessante. Confesso que não lhe paguei direitos de autor nem tão pouco lhe pedi autorização para utilizar o seu texto no meu blogue, mas como uso o texto dele numa perspectiva de apenas divulgar aquilo que são as suas ideias extremamente lúcidas e, na minha opinião, uma pedrada no charco no meio da teoria económica vigente, e não com ideia de lucrar algo ou dizer mal dele, acredito sinceramente que, mesmo que venha a saber, não me irá processar!

“As gerações actuais devem ter dificuldade em acreditar que houve um tempo em que a discussão política não se centrava nas convulsões do PIB [Produto Interno Bruto], mas essa é a mais pura das verdades.
Para começar, os sistemas de contabilidade nacional hoje usados foram inventados há apenas 70 anos. Antes disso, ninguém sabia ou cuidava de saber a variação homóloga da produção no último trimestre. Uma vez generalizado o método de medição, demorou ainda algum tempo (e muita lavagem ao cérebro) até que a opinião pública o aceitasse sem reservas como uma razoável aproximação do bem-estar colectivo.
Hoje, porém, poucos contestam a bondade do PIB como critério supremo de avaliação da acção política. Estamos a crescer mais ou menos? Acentuou-se ou reduziu-se a distância em relação aos outros países? A América é mais dinâmica do que a Europa? E o Governo estimula ou tolhe o PIB?
Transformar a soma de batatas com cebolas numa operação razoável foi um feito notável dos economistas, cuja relevância depende, todavia, da aceitação da equivalência entre acumulação de bens materiais e felicidade. Como toda a obra humana, também este "felicitómetro" tem os seus defeitos: o produto nacional aumenta se eu contratar uma mulher-a-dias, mas reduz-se, contra toda a evidência, se eu me casar com ela. É assim porque a contabilidade valoriza as transacções monetárias e desdenha as que não envolvem dinheiro. Mais complicado ainda é computar a riqueza gerada quando, ao contrário do que há escassas décadas sucedia, uma grande maioria da população não produz hoje nem batatas nem pregos, mas serviços intangíveis. O engenho dos economistas logrou, porém, superar essas e outras dificuldades de natureza mais técnica. Pelo menos, é assim que pensam os crentes.
Terão razão? A produtividade da UE é, dizem-nos as estatísticas, superior à dos EUA. Porém, como os americanos trabalham em média mais horas, o produto per capita deles é maior que o dos europeus, de onde decorre que eles são mais felizes do que nós. Este raciocínio absurdo explica-se pelo facto de o lazer não ser valorizado por este sistema: trabalhar mais é sempre bom, independentemente das consequências que isso tenha sobre a saúde psicológica e mental dos indivíduos e das famílias.
Mais: para a contabilidade nacional, um euro é um euro, sem interessar quem o recebe. Está aqui implícito que a desigualdade não afecta a felicidade dos cidadãos, embora nós saibamos (e a teoria económica o confirme) que um euro adicional proporciona mais felicidade a um pobre do que a um rico.
Nos tempos longínquos em que o ensino público básico gratuito foi introduzido na Europa, a poucos interessava que isso pudesse eventualmente contribuir para aumentar a produtividade da população. O benefício esperado da educação era, primeiro, a própria educação e, segundo, a promoção da cidadania. Hoje, porém, não só os investimentos na educação, mas também na cultura, na saúde e, mais recentemente, na própria justiça, são olhados com desconfiança se não contribuírem de alguma forma para promover a competitividade das empresas e do País. Tudo o que pareça incomodar o PIB estará ipso facto tramado.
Graças a Deus - há-de haver por força algo de divino nisto - alguma investigação económica parece sugerir que aquilo que é bom para as pessoas acaba mais tarde ou mais cedo por revelar-se bom para a economia. Não sei, todavia, se poderemos ficar tranquilos, dado que, segundo Fogel (Nobel da Economia em 1993), a escravatura era um regime de trabalho eficiente à data da sua abolição nos EUA.
Faz sentido que privilegiemos o objectivo de produzir mais e mais coisas quando a esmagadora maioria dos cidadãos vive na pobreza absoluta, mas as prioridades deveriam ir-se alterando à medida que a carência extrema se reduz e que outros factores se revelam mais decisivos para a promoção da dignidade humana.Nem o PIB nem qualquer outro indicador sintético são capazes de, isoladamente, elucidar-nos sobre o grau de bem-estar de uma sociedade. Para isso, precisamos de uma pluralidade de metas variáveis em função das circunstâncias e dos desafios do momento. Já que, nesta era obcecada pela quantificação (mesmo que espúria), estamos condenados a trabalhar para as estatísticas, ao menos que seja para aquelas que mais interessam.”

sábado, 25 de abril de 2009

O Zé.

Leiam a história que se segue e vejam se se conseguem lembrar de um país que tenha uma história semelhante à do Zé.

O Zé tinha um terreno. Mas como o Zé ainda era menor, era o pai que mandava no Zé. No terreno o Zé tinha um moinho, tinha um poço, tinha um gerador, tinha um celeiro, uma casa modesta e várias máquinas agrícolas pequenas, mas do que produzia o pai tirava-lhe uma parte do rendimento, o qual guardava. Como o terreno não produzia por aí além, o Zé tinha que viver com pouco e viver uma vida modesta, não podendo fazer grandes gastos em luxos. O pai do Zé era uma pessoa severa e não admitia que o Zé reclamasse. Um dia, num dia primaveril, num dia 25 (como hoje), o pai do Zé morreu, tendo imediatamente o lugar do pai sido tomado por um padrasto. O padrasto não parecia má pessoa e começou a tratar o Zé de uma forma muito mais agradável, deixando-o desabafar as suas mágoas. Vendo também que o Zé vivia com um orçamento um bocado apertado, e para que o Zé gostasse de si, tomou uma primeira medida: pegou no dinheiro que o pai do Zé guardara e começou a dar ao Zé um pouco todos os meses, o que fez com que o Zé pudesse viver um pouco melhor e começar a comprar coisas que antes não podia. Claro que o padrasto do Zé também tinha gastos, por isso ficou com metade do que o pai do Zé guardara, para si, para os seus gastos. Durante uns tempos o Zé andou muito mais feliz, fez obras na casa, e fazia desabafos com o padrasto, coisa que o pai não lhe permitia. Entretanto, continuava a receber mais algum por mês do dinheiro que o pai lhe tinha tirado durante alguns anos e a vida seguia de vento em popa.
Só que o Zé não produzia mais do que nos tempos do pai e o dinheiro que o pai guardara estava a acabar e o Zé teria que, dentro em breve, voltar à vida anterior. Como esta melhoria de vida que estava a ter tinha sido um dos motivos por que o Zé não lamentara a substituição do pai pelo padrasto, o padrasto tratou de arranjar maneira de não privar o Zé da vida que levava – claramente muito acima da que poderia levar face ao que a quinta rendia – e tratou de ir pedir dinheiro a um vizinho. O vizinho não se importou de emprestar dinheiro, mas avisou logo que um dia este teria que ser restituído e com juros. O padrasto não se importou, pois não queria ver o Zé a levar a vida que levava antes. Claro que pediu um pouco mais do que aquele que entregou ao Zé, pois necessitava de continuar a levar a sua vidinha e até estava a precisar de trocar de carro. O Zé não sentiu, portanto, quando o dinheiro do pai acabou e continuou a levar a sua vida. Entretanto o vizinho não pôde emprestar dinheiro durante muito mais tempo sem garantias, por isso, para poder continuar a conseguir o dinheiro para que o Zé continuasse a levar a sua vida (já comprara mobílias novas a um comerciante da zona, as quais estava a pagar a prestações, com juros não muito altos, dissera-lhe o padrasto), o padrasto do Zé teve que dar o moinho como garantia. Como o tempo passou e os empréstimos eram cada vez maiores e os juros tornavam-se incomportáveis, o padrasto teve que dar o moinho ao vizinho e pagar de cada vez que o utilizava. Como os juros eram já de montantes insuportáveis, e ainda tinha que pagar pela utilização do moinho, o padrasto do Zé vendeu o poço, passando também a pagar pela água e pediu dinheiro a outro vizinho, que lho emprestou com juros. Entretanto o padrasto do Zé decidiu comprar uma mota ao Zé, para que o Zé continuasse a levar uma vida melhor do que a do tempo do pai e comprou a mota a prestações, ficando o Zé a pagar as prestações da mota, dos móveis, do dinheiro emprestado e a pagar a utilização do poço e do moinho, tudo isso sem que a quinta produzisse mais; antes pelo contrário, a quinta produzia menos, pois o padrasto dissera ao Zé para não trabalhar tanto e para dar mais passeios de mota. Para poder pagar isso tudo, o padrasto do Zé foi pedir dinheiro a outro vizinho (ficando também com algum para si, para construir uma casa maior para si e para a mãe do Zé), mas este já só lhe emprestou com uma taxa de juro mais alta, pois o risco de o Zé não lhe conseguir pagar era grande (eram já muitas dívidas que o Zé acumulava e a quinta não produzia mais) e com a garantia do gerador. Passado um tempo, e como o Zé não ganhava para tanta despesa, o padrasto vendeu o celeiro, passando o Zé a pagar renda e pagou ao vizinho que ficara com o gerador como garantia, gerador esse que vendeu a seguir também, ficando com algum para si. Como já tinha pago a esse vizinho e o dinheiro da venda do gerador também estava a acabar, o padrasto voltou a ir pedir dinheiro a esse vizinho, que lho emprestou, tendo aí ficado com algum para mobilar a sua casa como deve ser. Entretanto, o Zé decidiu comprar um LCD, um DVD e uma aparelhagem. O Zé vivia como nunca vivera: tinha tudo do bom e do melhor, trabalhava cada vez menos e passeava cada vez mais. Até uma vinha que lhe dava um trabalhão desgraçado tinha sido arrancada, para vender por bom dinheiro ao vizinho (eram umas videiras de uma casta rara, que o pai lhe comprara em tempos, com o dinheiro que lhe “roubava” todos os meses e, afinal, para quê ter aquele dinheiro todo junto se só servia para gastar em coisas que davam trabalho?). Agora o Zé comprava o vinho lá fora e se não lhe apetecesse ir tratar das batatas e dos feijões também não havia problema, pois com o dinheiro que o padrasto lhe dava sem trabalhar quase nada, podia comprar tudo aos vizinhos. E o padrasto também nunca vivera como agora: tinha uma mansão mobilada com tudo o que há de melhor e um carrão, tudo comparado com o dinheiro que pedia emprestado para o Zé.
Com o passar do tempo, já nada do que estava dentro da quinta era do Zé e este tinha que pagar para utilizar tudo o que estava na sua quinta e trabalhava cada vez menos, mas recebia cada vez mais, pois o padrasto conseguia sempre arranjar quem lhe emprestasse dinheiro.
Mas um dia… Um dia o padrasto não conseguiu arranjar quem lhe emprestasse mais… De um dia para o outro, o Zé deixou de receber dinheiro do padrasto e teve que se ficar pelos parcos rendimentos da quinta (cada vez menores), pois já ninguém emprestava mais, visto que já ninguém acreditava que o Zé conseguisse, sequer, pagar os juros do que devia, quanto mais o capital. E o Zé viu, de um momento para o outro, os vizinhos entrarem-lhe em casa para lhe tirarem o LCD. Foi ter com o padrasto para saber que raio se passava, mas este respondeu-lhe que a coisa estava má, mas, mesmo sem o LCD, ainda estava muito melhor do que nos tempos do pai, pois ainda tinha a mota, a aparelhagem, a mobília…
Quando lhe entraram na casa para lhe levar a aparelhagem e o DVD, a resposta do padrasto foi que, mesmo assim, ainda tinha a mota, as mobílias e ainda tinha um padrasto que o deixava falar à vontade, que o ouvia, ao contrário do tempo do pai…
Entretanto, levaram-lhe a mota, mas o padrasto falou-lhe que ainda estava muito melhor que nos tempos do pai, pois ainda tinha mobília e um padrasto amigo, que o ouvia…
Num piscar de olhos o Zé ficou sem todos os luxos que tinha e já não era sequer dono do que estava na quinta. Tentou recomeçar a trabalhar, mas, desabituado como estava, já lhe custava muito mais que antes; foi falar com o padrasto, mas este separara-se da mãe e tinha tudo em seu nome, pelo que a mãe ainda ficou a viver com o Zé na casa vazia. Como não produzia o suficiente para pagar o que devia, ficaram-lhe com a quinta e com a casa: fora posto na rua e não tinha onde viver. O novo dono da quinta construiu uma barraca com uns paus mal amanhados e um telhado feito com umas chapas umas por cima das outras, sem água nem luz, e pô-lo a trabalhar de sol a sol na quinta por um salário muito baixo. O dinheiro que recebia mal dava para comer mais que uma sopa quase só feita de água e para pagar os juros da dívida. O Zé estava arruinado! Iria passar o resto da vida a trabalhar como um escravo e nunca mais podia aspirar a ter o nível de vida razoável que levava nos saudosos tempos de seu pai, onde trabalhava o suficiente para não faltar nada em casa, embora sem grandes luxos… Se ao menos ele tivesse pegado no dinheiro que o pai lhe deixara e o tivesse gasto a comprar um tractor, podia ter aumentado a produtividade da sua quinta, podia ter passado a ter uma vida menos dura e ainda podia ter feito uns biscates nos terrenos dos vizinhos para juntar algum e comprar outra quinta e arranjar trabalhadores para trabalharem por conta dele. Mas teve o azar de arranjar um padrasto que não só lhe sacou um dinheirão como o incentivou a viver à grande sem trabalhar e tudo para que ele não tivesse saudades do pai e mostrar que consigo como padrasto a vida era muito melhor do que no tempo do pai.

Até aos dias de hoje, ainda ninguém deixou de emprestar a esse país cuja história se assemelha à do Zé, mas quando isso acontecer… Nesse país, todos os Zés terão saudades do pai.

sábado, 28 de março de 2009

É urgente um novo partido.


Já ninguém acredita em Sócrates. Já todos os portugueses sabem que é uma pessoa incapaz de dizer a verdade seja em que ocasião for e que a sua política é desastrosa como se tem visto e ainda mais desastrosa para o futuro, mas aí, quando o desastre chegar, já nem lhe hão-de atribuir a culpa por alguns dos desastres causados (por exemplo, como já referi várias vezes, o desastre da educação, que só se irá sentir já alguns anos depois de ele se ir embora). Já ninguém acredita em Sócrates, nem mesmo quem, por interesse, o apoia e vota nele. Mas as alternativas à direita também não convencem ninguém. Manuela Ferreira Leite não convence ninguém, nem se vislumbra ninguém naquele partido que possa valer alguma coisa. O CDS é a mesma coisa: o CDS é Paulo Portas e este perdeu a credibilidade por ter feito parte de um governo que fez mais ou menos a mesma coisa que o governo do “eng.” Sócrates. Com isto, com a falta de credibilidade da chamada direita, Sócrates entra no eleitorado destes dois partidos (das pessoas desta área ideológica que ainda se dão ao trabalho de ir votar), pois muita gente de direita já nem sabe o que há-de fazer. Como já disse noutra crónica, muita gente, em protesto com isto tudo, vai votar precisamente na pior opção: na extrema-esquerda. Isto faz com que os votos em Portugal não representem minimamente a ideologia da maior parte da população e faz com que os governos governem à esquerda e cada vez mais à esquerda e levem Portugal para o abismo. As pessoas estão cansadas desta gente, os partidos são ninhos de criar políticos, a gente que anda agora na política são meninos que são políticos desde pequenos, que dominaram as juventudes partidárias e entraram na política sem nunca terem feito nada na vida, são pessoas que não sabem nada de nada e que a primeira profissão deles foi serem deputados, vereadores, chefes de gabinete deste ou daquele político mais velho, são pessoas que sempre viveram da e para a política e que nunca viveram a realidade do país, que não sabem nada de nada e não estão preparados para mandar em nada porque não sabem nada e, a maior parte deles, não valem nada, sendo apenas uma corja de bajuladores. E quando falo desta malta sem qualquer valor que anda pendurada na política, também já falo do bloco de esquerda que, mal começou a ter alguma representatividade na Assembleia da República, foi logo invadido por meninos betos e de boas famílias armados em rebeldes. A acrescer a tudo isto, temos uma comunicação social que não só cala quem tiver ideias que destoem das tolices generalizadas nas mentes dos portugueses desde a escola primária desde o 25 de Abril, como ainda as ataca, rotulando as pessoas, preconceituosamente, de racistas, xenófobas, fascistas, de extrema-direita, ou seja, quem não concordar com as ideias que nos têm levado para o abismo, leva logo com um rótulo que ninguém quer ter; e ninguém desta área ideológica pode ir para a televisão defender o que quer que seja, seja por medo ou por não ser mesmo convidado, ou até porque as suas palavras são tiradas do contexto em que foram ditas e repetidas até à exaustão. Como exemplo destes rótulos, eu lembro aqui que vários partidos de direita, como a frente nacional de Le Pen, em França, ou o partido de Haider, na Áustria, são sempre chamados na comunicação social como partidos populistas, racistas, xenófobos, fascistas ou de extrema-direita. Mas quem é a comunicação social para rotular partidos? Eu nunca ouvi rotular desta maneira partidos de extrema-esquerda, ou rotular, por exemplo, o partido de Sócrates como o partido do mentiroso…
Continuando, Portugal está entregue a gente que não vale nada e não sabe nada e, no meio disto (ou por causa disto) as pessoas deixaram de ir votar ou passaram a votar em partidos que elas próprias sabem que não prestam e que não defendem verdadeiramente os interesses do país, fazendo-o apenas como protesto. Quem for para a rua falar com as pessoas verá que as pessoas falam e pensam de maneira completamente diferente da que os políticos, da esquerda à direita, falam na televisão. As pessoas já não acreditam em ninguém daquela gente, daquela gente que continua a mamar na “grande porca” que é a política. E quando vão votar, votam mal, porque não há um partido que represente verdadeiramente o pensamento dos portugueses. E porque esse partido, se existisse, não teria voz na comunicação social (ou seria mesmo atacado – quem não se lembra do cartaz do PNR no Marquês de Pombal, em Lisboa, que foi, primeiro, vandalizado e depois proibido?), ou seria rotulado com nomes horríveis ou seria apresentado como um partido que não tinha hipóteses e que votar nele era estragar um voto, como se o voto num dos outros partidos valesse mais do que um voto num partido desses. Enfim, eles até já são senhores do nosso voto, influenciando-nos com a ideia de que o nosso voto vale ser for neste partido, mas não vale se for no outro.
Mas nós precisamos de um verdadeiro partido de direita, um partido que não seja apenas conservador nos ideais, mas que não seja liberal, que não defenda o capitalismo selvagem e a privatização de tudo e mais alguma coisa. Um partido que defenda que sectores fundamentais para o desenvolvimento e soberania do país (água, electricidade, saúde, segurança, estradas, educação, segurança social, uma empresa petrolífera, um banco e outras coisas mais) devem estar nas mãos do Estado; um partido que combata verdadeiramente o crime, quer com leis como deve ser, quer dando autoridade às polícias; um partido que defenda a classe média, incentive o trabalho e a poupança, e desincentive a indigência e o “chupismo”; um partido que ponha nas chefias da função pública e das empresas públicas pessoal de carreira que suba pelo mérito e não pela cor do cartão partidário; um partido que corra da política esta escumalha que por lá anda e que leve para lá pessoas com mérito; um partido que impeça o saque a que os dinheiros públicos estão sujeitos e que ponha esta corja de ladrões e vigaristas e corruptos todos na prisão e que não deixe os casos de corrupção em Portugal todos arquivados ou prescritos, havendo provas de delitos que não são validadas por meros expedientes processuais; um partido que não esteja todos os dias a inventar maneiras de sacar dinheiro às pessoas por tudo e por nada; um partido que não faça as pessoas pagarem exorbitâncias (autênticas rendas ao estado, por vezes) por terem algo de seu; um partido que dê educação aos jovens, que dê autoridade aos professores e que não fomente a reprodução de ignorância (nomeadamente com o fazer com que todos avancem no ensino sem saber nada ou as novas oportunidades); um partido que ponha ordem na justiça e na legislação fiscal, que acabe com os excessivos direitos dos criminosos e que faça com que a justiça funcione em tempo razoável; um partido que tenha governantes que servem o país e não se sirvam do país, andando aqui a tratar o povo por lorpa; um partido que construa hospitais e centros de saúde em vez de estádios de futebol; um partido que arranje estradas em vez de fazer rotundas; um partido que construa lares para idosos e esquadras de polícia em vez de grandes edifícios novos para as câmaras municipais se instalarem; um partido que ajude e financie quem quer ter filhos e não consegue em vez de ajudar e financiar abortos. No fundo, um partido que faça aquilo por que todos os portugueses anseiam e falam, mas que não existe, porque as pessoas têm medo de ser prejudicadas nas suas vidas se aderirem ou fundarem um partido que mexa assim com os interesses instalados. Mas, ao mesmo tempo, um partido que tenha credibilidade junto das pessoas, que não seja constituído por indivíduos mais ou menos trogloditas, de cabeça rapada e botas da tropa, que apenas dão mau nome e má imagem a qualquer partido, por mais sério que ele seja; porque a verdadeira direita é constituída por pessoas simples e por intelectuais e não por trogloditas, que é sempre a imagem que a comunicação social tenta passar dos partidos de direita. Porque a verdadeira direita não necessita de ser antidemocrática (como a extrema-esquerda o é) e não é antidemocrática. Porque um partido constituído por gente de bem, inteligente e que sirva o país, não necessita de ser antidemocrático, pois o bom governante saberá ser amado e o povo reconhecê-lo-á. E não há que ter medo de eleições. Medo têm os que lá estão, do dia em que um partido de direita assim, que não se deixe contaminar por gente vinda do actual poder nem de meninos que queiram a ele aderir desde pequeninos, chegar ao poder e usar esse poder para o bem do país e das pessoas e não de si ou das clientelas políticas. Eles têm medo de um partido que acabe com os tachos e com as regalias de uma cambada que vive com altíssimos salários e rodeada de mordomias (carros, telemóveis, cartões de crédito, etc.), enquanto se fala de baixar os salários às pessoas.
Era de um partido assim que Portugal necessitava. E é um partido assim que as pessoas, sebastianamente, aguardam e que há-de surgir um dia. E nessa altura, serão os sem mérito, que vivem do saque ao povo, que terão dores de morte!

sexta-feira, 13 de março de 2009

O crescimento da esquerda.


Não é novidade para ninguém que vivemos uma grave crise económica e financeira mundial. O capitalismo selvagem levou um forte abalo e as pessoas sentem na pele a crise e muitas descrêem agora do casino que era muito deste capitalismo, onde as pessoas eram possuidoras de riqueza que não existia, era tudo riqueza especulativa, as coisas não valiam de facto o que se dizia que valiam, e toda a gente vivia acima das suas possibilidades, iludindo-se que era rica. Isto é também o que acontecia em Portugal: o crédito fácil e barato e o dinheiro que chegava lá de fora (e ainda há muito a chegar, atenção!) dava às pessoas a ilusão de que eram ricas ou remediadas, em vez da realidade de que são remediadas ou pobres (isto a maioria, pois uns tinham a ilusão de que eram estupidamente e obscenamente ricos e afinal eram só ricos ou muito ricos, pois as suas fortunas esfumaram-se na bolsa). Viveu-se, portanto, a ilusão (muito incutida pelos meios de comunicação social, que iludem os mais novos) de que Portugal, após o 25 de Abril, ficou mais rico e mais próspero e que recuperámos do atraso em que o Estado Novo nos mergulhou (como se o atraso tivesse sido causado pelo Estado Novo e não fosse um atraso crónico, que existe desde que Portugal é Portugal). Nada mais falso, como pode constatar agora qualquer pessoa minimamente inteligente ou que não seja intelectualmente desonesta. Podemos constatar que tudo, desde o 25 de Abril, foi uma ilusão que se viveu, onde vivemos constantemente acima das nossas possibilidades dando assim a sensação de que estávamos melhores, primeiro à custa do imenso ouro que Salazar nos deixou (era a 3ª maior reserva de ouro do mundo), depois dos fundos do FMI, depois dos fundos da União Europeia, e ainda do recurso ao crédito e endividamento no exterior, que algum dia terá que ser pago.
Ora, quando o país vai para o buraco interessa defender a “seita” que o parasita, importa defender o regime, importa convencer o povo (sobretudo os mais jovens, pois os mais velhos viveram no tempo de Salazar e sabem bem que isto são quase tudo mentiras – daí vir a velha máxima, a de que são velhos e, portanto, saudosistas, como se fosse possível ser-se saudosista de um tempo mau e de sofrimento) de que isto até nem está bem, mas antes era tudo muito pior, que era uma sardinha para 3 (quem não ouviu esta história repetida até à exaustão), o que nos leva a pensar que antigamente as famílias eram todas constituídas por múltiplos de 3, ou que se vendiam terços de sardinhas (“olhe, dê-me aí uma sardinha e um terço de outra, pois a minha família tem 4 pessoas!” – “sim senhor, quer a parte da cabeça ou do rabo?” – “dê-me a do meio, que tem mais carninha”), que não se podia falar (como se hoje pudéssemos – alguém tente escrever alguma coisa contra o governo e vai ver onde se mete, se não leva processos disciplinares ou processos em tribunal), que o povo era muito ignorante (vejamos quem construiu a maior parte das escolas de hoje, comparemos o ensino rigoroso de então com a rebaldaria e “reprodução de ignorância” de hoje, e vejamos, sobretudo, o que era o ensino antes do Estado Novo, para vermos se o objectivo da época era a ignorância ou se, pelo contrário, se partiu do estado zero para a construção de escolas, universidades, ensino rigoroso, ou seja, se o investimento no ensino em Portugal não foi o maior de sempre), e outras baboseiras, muitas delas contadas com anacronismos gritantes, acusando o Estado Novo de coisas que, de facto, hoje são impensáveis (sobretudo ao nível da moral), mas que na altura eram assim em Portugal e eram assim em todo o mundo; mas que era assim em todo o mundo não se fala.
Enfim, os portugueses que cresceram depois do 25 de Abril são bombardeados com mentiras pelos nossos governantes e pela comunicação social e não se imaginam a viver no mundo que lhes é contado, quando comparado com o mundo de ilusão em que viviam e, quando o mundo de ilusão se desmorona, é preciso denegrir o Homem que personificava o Estado Novo (fazem-se séries de televisão fantasiosas ou põem-se indivíduos que nunca privaram com ele a dizer como é que ele era na intimidade, no dia a dia), denegrir o Homem que tinha dois contadores da luz no palácio de S. Bento – um para a zona oficial, pago pelo Estado, e outro para a zona onde vivia, pago por ele (alguém acredita que hoje em dia ainda é assim?) – o Homem que se mandasse o carro oficial fazer-lhe um recado pessoal dava dinheiro dele ao motorista para que pusesse gasolina no carro, o governante português mais sério que existiu, um dos poucos governantes da história de Portugal que mandou no país durante cerca de 40 anos e morreu, não diria pobre, mas com a quinta do Vimieiro e nada mais (comparem-no com esta malta que lá anda, que ao fim de meia dúzia de anos estão riquíssimos e, muitos deles, envolvidos em escândalos de corrupção – como eu os compreendo no medo que têm ao Salazar, que é um péssimo exemplo para eles e que os não deixaria andarem no saque ao erário público em que andam).
Mas, quando se poderia (e deveria) ver a verdadeira direita a subir (que, no fundo, é grande, como se viu, por exemplo, quando Salazar ganhou o concurso do “maior português de sempre”), eis que se nota que as pessoas de direita continuam iludidas com o CDS e o PSD (que não são quem nos representa), que se vê o centro fugir para o PS e se assiste, pasme-se!, ao crescimento da extrema esquerda. Claro que eu posso compreender um pouco essa tontice por parte dos mais jovens, que não são bombardeados com as verdades do que se passou após o 25 de Abril, com o que a esquerda fez e com o que tentou fazer e não conseguiu, como o são com as mentiras que se contam do Estado Novo e que, a maior parte das vezes, anda alienada do que se passa na sociedade e ignorante e incapaz de pensar em coisas que não sejam futilidades (como telemóveis, música rock, roupa de marca ou da Zara, cinema de pancadaria, álcool ou drogas), acha que tem amigos numa esquerda que defende algumas das suas tontarias próprias da idade, mas que se chegasse ao poder mais não faria do que terminar com tudo o que os jovens apreciam na sua futilidade. Alguém acredita que o comunismo (seja ele estalinista, maoista, trotskista, castrista ou outro qualquer mais ou menos radical) deixaria a juventude entregue aos charros, à roupa de marca ou da Zara, aos telemóveis topo de gama ou outra coisa qualquer que o capitalismo proporciona aos jovens e que jamais houve em qualquer país comunista? A juventude havia de ir viver para Cuba algum tempo (viver e trabalhar, não é levar vida de turista, como a que leva lá quem para o ocidente vem gabar Cuba) ou para a Coreia do Norte passar fome, para ver o que o comunismo ou a extrema-esquerda lhes dá! Os jovens que andam aí armados em rebeldes e defensores das teorias económicas utópicas dessa gente, nomeadamente bloquista, haviam de poder por em prática num qualquer recanto do mundo aquilo que esses senhores defendem, para ver ao fim de quanto tempo estavam a passar fome e a tentar fugir para um país capitalista (e atenção, eu não sou, e posso-me gabar de nunca ter sido, defensor do capitalismo selvagem e neo-liberal).
Mas o que eu não consigo compreender é que muita gente, como voto de protesto, alinhe em votar em partidos que não são defensores dos seus ideais. As pessoas que não concordam com o estado a que o país está a chegar por causa dos dois maiores partidos, ao fazerem um voto de protesto na extrema-esquerda, estão a levar esses tontos que nos governam a pensar que o povo está a virar à esquerda e tendem a tomar cada vez mais medidas de esquerda que apenas levam à ruína do país. Porque é claro que toda a gente acha que os trabalhadores deviam ganhar mais, que deviam ter mais direitos, que as empresas deviam pagar mais impostos, etc., etc., etc.. Mas as coisas não podem ser feitas assim só porque isso é justo. Porque no mundo globalizado em que vivemos, esse tipo de medidas impostas por governos, apenas levaria a que as empresas se deslocalizassem para países onde os trabalhadores têm menos direitos e os impostos são mais baixos. E essas medidas demagógicas e utópicas que esses partidos propõem apenas levariam a um desemprego cada vez maior por via da deslocalização e de falências de empresas que não conseguiriam competir com a concorrência exterior.
Portanto, não é certo nem é viável uma viragem à esquerda e é terrível assistir ao crescimento de quem apenas nos levaria à miséria. É errado fazer-se um voto de protesto em quem apenas diz “esfola” a quem nos quer matar. E assistir a isto, causa-me dores que, mais do que de morte, são de esfolar vivo. Porque é urgente que esse voto de protesto seja feito num partido de direita que leve o país para o caminho certo. Pena é que, neste momento, esse partido não exista… Mais vale votar num pequeno partido de direita que já exista (mesmo não sendo o ideal, mesmo não sendo o verdadeiro representante da ideologia da generalidade dos portugueses ou não seja integrado apenas por gente decente), a ver o que dá.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Já não há vergonha.

Não quero deitar muitas achas para a fogueira do caso “Freeport”. Na verdade já sei que aquilo não vai dar em nada. Os políticos inventaram uns esquemas na justiça para se defenderem. E o esquema da justiça em Portugal está muito bem planeado e funciona na perfeição para a maneira como foi pensado, ou seja, foi pensado para não funcionar e o objectivo foi conseguido. Foi pensado para que eles façam o que muito bem lhes apetecer e nunca poderem ser condenados. Toda a gente sabe que a justiça não funciona e o nosso primeiro-ministro vai lavar a cara, quando tudo for arquivado, e vai continuar a não ter vergonha de aparecer na televisão. Mas a verdade é que já toda a gente sabe que ali houve trafulhice e que ele favoreceu a empresa que construiu o “Freeport”. Toda a gente sabe, mesmo os que o defendem por interesse partidário. Não há como fugir disso, que toda a gente sabe disso e toda a gente sabe que não vai acontecer nada a José Sócrates e que ele não vai ter vergonha de continuar a andar por aí. Mas eu não estranho. Não estranho eu, nem estranha ninguém. Porque também toda a gente sabe que, na classe política, já não há vergonha. Isto é como tudo: vai-se começando a abusar um pouco aqui, um pouco ali, o povo vai ficando calado e votando neles, e eles vão fazendo mais umas trafulhices e o povo vai deixando, até que eles chegam à conclusão que o povo não reage e continua a votar neles por mais que nos façam, e chega-se ao patamar final: o da falta de vergonha! Já é nesse estado em que estamos. Chegámos ao ponto de eles fazerem as trafulhices que lhes apetece, haver provas que demonstram que eles fizeram as trafulhices, mas as provas não são válidas (aí está a justiça e o que eles apregoam como o “Estado de Direito”, ou seja, o Estado onde há provas de crimes mas as provas não são válidas e, portanto, a pessoa é declarada inocente pelo tribunal) e eles continuam por aí, pelos altos cargos políticos (ou outros) sem a mínima ponta de vergonha na cara. E ainda têm a coragem (ou a falta de vergonha) de dizerem que provaram a inocência deles em tribunal, quando o que se provou, a maior parte das vezes, é que eles são culpados, só que as provas não valeram! Chegados a este estado de falta de vergonha em roubarem o povo, eles não se importam que toda gente saiba que eles são vigaristas. Que interessa que toda a gente saiba disso, se os tribunais (que também sabem disso mas estão manietados pelas leis que eles fazem) os declaram inocentes. Não lhes interessa se os próprios advogados que os defendem sabem que eles são culpados, nem se importam de ser defendidos na comunicação social por outros que também sabem que eles são vigaristas. Nem têm vergonha de se dizerem vítimas de cabalas, ou de campanhas negras, mesmo sabendo que toda a gente sabe que toda a gente tem consciência de que o que estão a dizer é tudo mentira.
E é isto o caso “Freeport”. Já toda a gente sabe. Eles sabem que toda a gente sabe. Eles sabem que toda a gente sabe que, desta vez, eles até mandaram o SIS investigar a investigação, mas continuam a negá-lo. E não têm vergonha de mentir e saberem que nós sabemos que eles estão a mentir e que são vigaristas. Já não há vergonha. E como não têm vergonha, não têm dores. Eu, se fosse vigarista e mentiroso, tinha vergonha se fosse descoberto e se toda a gente soubesse; se a minha família soubesse que eu era mentiroso e vigarista. E teria dores de morte com isso. Eles não têm essas dores. As pessoas são feitas de “massas” diferentes, não é?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Comprar coisas reparáveis?

Há pouco tempo estava a ver televisão, a mudar de canal para canal à espera de encontrar alguma coisa que me interessasse (há um anglicismo para este acto, mas eu não gosto muito de anglicismos e evito-os). Chego a um canal onde estava a dar um anúncio qualquer destes que agora estão na moda acerca de reciclagem e outros conselhos muito ecologistas e onde ouço uma coisa fantástica, do género “compre coisas de qualidade, que possam ser reparadas”! Fantástico! É nestas alturas que eu me convenço mais que o meu pai é um sábio, um visionário, uma mente incompreendida mas que, aos poucos, o mundo lhe vai dando razão. E fico feliz por ter crescido a ouvir as coisas sábias que ele dizia e que, no entanto, eram para os outros motivo de chacota. Mas como as coisas mudaram: hoje são eles que praticam certas coisas que antes criticavam e é ele que resiste a muita coisa que antes dizia que devia ser feita. Falemos, então, de reciclagem e de “coisas reparáveis” (só um cheirinho, pois isto levava-nos tão longe…).
Conta o meu pai que, antigamente, tudo era reciclado. Que havia quem vivesse de recolher papel, vidro, metais, peles de coelho, etc.. Foi assim que ele cresceu. E, durante muitos anos, eu lembro-me de o meu pai juntar centenas de quilos de papel e ir vender a 5 escudos o quilo (não ficava nem mais rico, nem mais pobre, mas isso dava-lhe gozo). O mesmo para o vidro, mas em menos escala. Quando qualquer coisa se avariava lá em casa, fazia os possíveis por repará-la. Ora, isto era o motivo da maior chacota por parte de quem auferia de rendimentos muito mais baixos que os dele: “mas um homem que tem o ordenado que tem, tem necessidade disso?”.
Pois bem, acabaram-se os sítios onde o meu pai ia vender os seus produtos recicláveis e lançou-se uma campanha de marketing na televisão a falar aos ignorantes que a poluição era muita, que havia produtos que não se deviam misturar no lixo normal e que deveriam ser deitados em sítios próprios para serem reciclados. E os ignorantezinhos, que antes se riam do facto e o meu pai juntar e vender esses tais produtos recicláveis e receber algum por isso, passaram a separar, a juntar, e a ir entregar isso nos tais recipientes, sem que lhes paguem nada e deixando meia dúzia de espertalhões “abotoarem-se” com o esforço do seu trabalho (se o papel era pago ao quilo ao meu pai por um indivíduo que o ia vender a empresas de papel e isso dava para os dois ganharem algum, hoje hão de ser essas empresas que fazem a recolha que se hão de “abotoar” com todo – o qual é muito mais, pois todos os “carneirinhos” lá vão pôr o papelinho como a televisão manda, inclusivamente fazendo comparações entre os “carneirinhos” da reciclagem e macacos!). Foi aí que o meu pai deixou, e com razão, de reciclar: pois se antes lhe pagavam para o fazer, porque motivo há-de ele fazer agora se deixaram de lhe pagar? Mas pronto, esta da reciclagem já vem de há uns anos, parece que os macacos já a sabem fazer e até já estão habituados a ela.
O que eu estranhei foi mesmo o apelo a que se comprassem coisas de qualidade e que pudessem ser reparadas! Que sacrilégio para o capitalismo! Então isso diz-se? Se se reciclar, ainda há uma malta que se “abotoa” com o trabalho dos outros (o dos tais macacos recicladores), por isso está tudo bem para o capitalismo. Agora, se se repararem as coisas, como é que as empresas vão continuar a produzir mais e mais, e como é que vão continuar a aumentar os lucros e como é que o PIB vai continuar a subir até ao céu?! Meu Deus, o Capital precisa que se deitem fora coisas boas (reciclem-se) e que se continuem a produzir coisas que não precisamos. E os governantes precisam disso também, precisam de cada vez mais gente a trabalhar e a produzir para manter o seu nível de carga fiscal e para poderem manter o esquema de pirâmide da Segurança Social, em que é necessário cada vez mais população activa para pagar as reformas daqueles que já as pagaram ao longo da vida, mas cujo dinheiro foi usado para dar a quem não quer trabalhar (desculpem, “aos que mais precisam”!) e à classe política que tem que enriquecer cada vez mais rapidamente antes que isto “dê o berro” de uma vez por todas (abençoado Salazar, que lá esteve 40 anos e morreu remediado!), em vez der utilizado num fundo capitalizável e guardado para a altura em que as pessoas se reformavam.
Mas é este o nosso mundo, um mundo onde cada vez mais se começa a ver que o modelo capitalista em que vivemos está esgotado, é incomportável para o planeta e para o bem estar das pessoas, mas ao mesmo tempo os vícios que vêm de trás impedem que se organize o mundo como deve ser. Como é possível querer aumentar o PIB e o horário de trabalho e a população activa e ao mesmo tempo dizer às pessoas para poupar e para comprar coisas que se possam consertar em vez de deitar fora? Este paradoxo do mundo capitalista e das “democracias ocidentais” é mais uma coisa que outra coisa não faz do que me causar mais umas dorzitas de morte. E “dorzitas” é favor!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Israel e a Faixa de Gaza.

Israel começou os bombardeamentos e os ataques à Faixa de Gaza e o mundo ficou muito revoltado com a desproporção de meios utilizados. Durante anos seguidos, os israelitas foram atacados diariamente por rockets lançados a partir deste território dominado por terroristas palestinianos e na altura em que um país soberano decide acabar com isto, o mundo, que se calou enquanto Israel era atacado, fica muito chocado com a “desproporção” de meios utilizados. Se calhar, pretendiam que Israel começasse também a lançar rockets de volta! Não acredito que nenhum destes países moralistas da União Europeia se sujeitasse a uma situação destas o tempo que Israel se sujeitou sem retaliar com violência. Porque é inadmissível que um grupo de maluquinhos convencidos que se morrerem a matar seres humanos terão uma catrapaziada de virgens lá no outro mundo, não deixe sossegar um povo que pegou num deserto onde não havia nada e o pusesse a produzir. Porque não e admissível que um país seja atacado todos os dias e não possa retaliar com brutalidade suficiente para destruir quem não faz mais nada senão tentar destruí-lo. Porque não se pode deixar que assassinos se misturem aos seus civis, condenando-os à morte, e que não sejam atacados por causa disso. Porque não se pode dar voz aos assassinos que reclamam que Israel lhes mata os civis e as crianças, se são eles que se organizam e se escondem entre os civis e as crianças, para reclamarem ao mundo a morte destes e destas pelos israelitas. Porque os muçulmanos já nos habituaram a comemorar atentados com centenas ou milhares de vítimas civis perpetrados contra o ocidente, onde morrem mulheres e crianças, e não têm moral para reclamar as mortes que lhes são infligidas, inevitavelmente, quando os terroristas se misturam no meio da população civil e quando esta, em vez de denunciar quem lhes provoca que sejam vítimas destes ataques, ainda os protege. E porque as bombas não têm olhos e quando há guerra terão inevitavelmente que morrer civis; sempre assim foi e sempre será, desde os primórdios do mundo. As guerras devem-se evitar, mas há alturas em que ela é inevitável (e, neste caso, não foi Israel que a começou, foram os palestinianos que, ao longo dos últimos anos, lançaram milhares de rockets sobre Israel, provocando morte e destruição) e nessas alturas é inevitável que morram civis, pois as guerras não se travam hoje em dia em campos de batalha (muito menos com terroristas, que são uns cobardes que se misturam no meio de civis, de mulheres e de crianças, e daí lançam bombas para cima de pessoas que trabalham, têm a sua vida, as suas casas, os seus empregos, os seus filhos…). Contra canalhas destes, a guerra nunca é desproporcionada. A guerra só é desproporcionada quando estes cobardes atacam pessoas que estão a tratar de viver a sua vida sem fazer mal a ninguém e estas são mortas na rua por um rocket lançado por um cobarde a dezenas de quilómetros, sem qualquer objectivo de atingir um alvo militar, mas antes com o objectivo de matar pessoas civis e provocar estragos ou impedir a tranquilidade de quem vive a sua vida a trabalhar e a produzir algo de bom e útil. E este cinismo do mundo, provoca-me umas dores que só visto!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Importam-se que eu seja branco?

Barack Obama ganhou as eleições presidenciais nos EUA. Dizem que a mudança vai chegar (eu duvido que seja assim tanta como se espera, pois uma coisa é ser candidato a presidente, outra é ser presidente); dizem que um negro conseguiu chegar à presidência e que isso é bom; diziam que um negro chegar à presidência da África do Sul também era bom e tem-se visto como aquele país caminha para o abismo. Mas não é contra negros que estou aqui a escrever, pois não considero Barack Obama igual a Nelson Mandela, nem os Estados Unidos são a África do Sul, nem considero que Obama vá levar o seu país para onde Mandela e os seus sucessores levaram e continuam a levar cada vez mais o deles. Não, não estou aqui a escrever contra negros, estou aqui a reivindicar, para mim e para tantos outros, o direito de ser branco e gritar ao mundo que SER BRANCO NÃO TEM NADA DE MAL!
E digo isto porque às vezes parece que temos que ter vergonha de ser brancos. Parece que temos que ouvir na televisão negros que vivem em Portugal dizerem que não gostam dos brancos, que detestam Portugal, alguns deles que só são portugueses porque lhes dá jeito e ninguém diz nada contra isso, antes pelo contrário, dizem que os negros são coitadinhos e que se vivem mal é por nossa causa, por causa dos que continuam a levantar-se de manhã para ir trabalhar para dar casas e subsídios aos negros (e não só, é verdade, também para os ciganos e outros brancos preguiçosos), mas se um branco disser a mais pequena coisa contra um negro, cai logo o Carmo e a Trindade; parece que os negros podem ter armas e mostrá-las na televisão e a polícia não pode fazer rusgas nos bairros onde eles estão – porque é racismo e vem logo o SOS Racismo e o Bloco de Esquerda – , mas se um branco mostra uma arma – como foi o caso do outro skinhead do qual nem me lembro do nome – vai lá logo a polícia no dia a seguir prendê-lo; parece que vários negros podem espancar um branco (e aqui estamos a falar de violência urbana), mas vários brancos não podem espancar um negro, porque é racismo; parece que é legítimo e louvável que os negros nos EUA se vão em massa recensear e votar, com o único fim de irem votar num negro, mas não é legítimo um branco ir votar num candidato porque é branco… E reparem que isto não é nada contra os negros, é apenas pelo direito de igualdade que nós, brancos, devemos ter em relação aos negros. Se eu fosse americano, provavelmente, até teria votado Obama, mas assim como reconheço que é legítimo os negros votarem em Obama apenas pelo facto de este ser negro, não queiram tirar o direito a qualquer branco de votar em McCain porque ele é branco!
E finalmente, nunca ouvi ninguém na televisão ou qualquer partido de esquerda condenar Robert Mugabe, no Zimbabué, por ter políticas racistas contra os brancos, dando permissão a que fazendas fossem ocupadas e fazendeiros mortos, pelo simples facto de estes serem brancos; sim, porque cidadãos zimbabueanos eram espoliados e mortos pelo simples facto de serem brancos, sendo as fazendas abandonadas após as colheitas (criando fome e pobreza num dos outrora mais ricos países de África, hoje um dos países mais pobres do mundo, com fome, refugiados, miséria, corrupção). Mas no tempo em que a África do Sul segregava os negros (nada comparado com a segregação dos brancos no Zimbabué) era o fim do mundo e ninguém se calava.
Ah! E já sei: pelo facto de reivindicar aqui os mesmos direitos para os brancos que os negros usufruem, já vou ter um rótulo (este é o país do rótulo a quem não entoa o zurro geral – homófobo, fascista, racista, retrógrado, etc.), o bonito rótulo de racista. Mas não se preocupem, que com rótulos postos por indivíduos acéfalos, posso eu bem!
O que eu não posso é com esta discriminação de que eu e outros milhões de brancos somos alvo, e que me causa dores de morte…