sábado, 25 de abril de 2009

O Zé.

Leiam a história que se segue e vejam se se conseguem lembrar de um país que tenha uma história semelhante à do Zé.

O Zé tinha um terreno. Mas como o Zé ainda era menor, era o pai que mandava no Zé. No terreno o Zé tinha um moinho, tinha um poço, tinha um gerador, tinha um celeiro, uma casa modesta e várias máquinas agrícolas pequenas, mas do que produzia o pai tirava-lhe uma parte do rendimento, o qual guardava. Como o terreno não produzia por aí além, o Zé tinha que viver com pouco e viver uma vida modesta, não podendo fazer grandes gastos em luxos. O pai do Zé era uma pessoa severa e não admitia que o Zé reclamasse. Um dia, num dia primaveril, num dia 25 (como hoje), o pai do Zé morreu, tendo imediatamente o lugar do pai sido tomado por um padrasto. O padrasto não parecia má pessoa e começou a tratar o Zé de uma forma muito mais agradável, deixando-o desabafar as suas mágoas. Vendo também que o Zé vivia com um orçamento um bocado apertado, e para que o Zé gostasse de si, tomou uma primeira medida: pegou no dinheiro que o pai do Zé guardara e começou a dar ao Zé um pouco todos os meses, o que fez com que o Zé pudesse viver um pouco melhor e começar a comprar coisas que antes não podia. Claro que o padrasto do Zé também tinha gastos, por isso ficou com metade do que o pai do Zé guardara, para si, para os seus gastos. Durante uns tempos o Zé andou muito mais feliz, fez obras na casa, e fazia desabafos com o padrasto, coisa que o pai não lhe permitia. Entretanto, continuava a receber mais algum por mês do dinheiro que o pai lhe tinha tirado durante alguns anos e a vida seguia de vento em popa.
Só que o Zé não produzia mais do que nos tempos do pai e o dinheiro que o pai guardara estava a acabar e o Zé teria que, dentro em breve, voltar à vida anterior. Como esta melhoria de vida que estava a ter tinha sido um dos motivos por que o Zé não lamentara a substituição do pai pelo padrasto, o padrasto tratou de arranjar maneira de não privar o Zé da vida que levava – claramente muito acima da que poderia levar face ao que a quinta rendia – e tratou de ir pedir dinheiro a um vizinho. O vizinho não se importou de emprestar dinheiro, mas avisou logo que um dia este teria que ser restituído e com juros. O padrasto não se importou, pois não queria ver o Zé a levar a vida que levava antes. Claro que pediu um pouco mais do que aquele que entregou ao Zé, pois necessitava de continuar a levar a sua vidinha e até estava a precisar de trocar de carro. O Zé não sentiu, portanto, quando o dinheiro do pai acabou e continuou a levar a sua vida. Entretanto o vizinho não pôde emprestar dinheiro durante muito mais tempo sem garantias, por isso, para poder continuar a conseguir o dinheiro para que o Zé continuasse a levar a sua vida (já comprara mobílias novas a um comerciante da zona, as quais estava a pagar a prestações, com juros não muito altos, dissera-lhe o padrasto), o padrasto do Zé teve que dar o moinho como garantia. Como o tempo passou e os empréstimos eram cada vez maiores e os juros tornavam-se incomportáveis, o padrasto teve que dar o moinho ao vizinho e pagar de cada vez que o utilizava. Como os juros eram já de montantes insuportáveis, e ainda tinha que pagar pela utilização do moinho, o padrasto do Zé vendeu o poço, passando também a pagar pela água e pediu dinheiro a outro vizinho, que lho emprestou com juros. Entretanto o padrasto do Zé decidiu comprar uma mota ao Zé, para que o Zé continuasse a levar uma vida melhor do que a do tempo do pai e comprou a mota a prestações, ficando o Zé a pagar as prestações da mota, dos móveis, do dinheiro emprestado e a pagar a utilização do poço e do moinho, tudo isso sem que a quinta produzisse mais; antes pelo contrário, a quinta produzia menos, pois o padrasto dissera ao Zé para não trabalhar tanto e para dar mais passeios de mota. Para poder pagar isso tudo, o padrasto do Zé foi pedir dinheiro a outro vizinho (ficando também com algum para si, para construir uma casa maior para si e para a mãe do Zé), mas este já só lhe emprestou com uma taxa de juro mais alta, pois o risco de o Zé não lhe conseguir pagar era grande (eram já muitas dívidas que o Zé acumulava e a quinta não produzia mais) e com a garantia do gerador. Passado um tempo, e como o Zé não ganhava para tanta despesa, o padrasto vendeu o celeiro, passando o Zé a pagar renda e pagou ao vizinho que ficara com o gerador como garantia, gerador esse que vendeu a seguir também, ficando com algum para si. Como já tinha pago a esse vizinho e o dinheiro da venda do gerador também estava a acabar, o padrasto voltou a ir pedir dinheiro a esse vizinho, que lho emprestou, tendo aí ficado com algum para mobilar a sua casa como deve ser. Entretanto, o Zé decidiu comprar um LCD, um DVD e uma aparelhagem. O Zé vivia como nunca vivera: tinha tudo do bom e do melhor, trabalhava cada vez menos e passeava cada vez mais. Até uma vinha que lhe dava um trabalhão desgraçado tinha sido arrancada, para vender por bom dinheiro ao vizinho (eram umas videiras de uma casta rara, que o pai lhe comprara em tempos, com o dinheiro que lhe “roubava” todos os meses e, afinal, para quê ter aquele dinheiro todo junto se só servia para gastar em coisas que davam trabalho?). Agora o Zé comprava o vinho lá fora e se não lhe apetecesse ir tratar das batatas e dos feijões também não havia problema, pois com o dinheiro que o padrasto lhe dava sem trabalhar quase nada, podia comprar tudo aos vizinhos. E o padrasto também nunca vivera como agora: tinha uma mansão mobilada com tudo o que há de melhor e um carrão, tudo comparado com o dinheiro que pedia emprestado para o Zé.
Com o passar do tempo, já nada do que estava dentro da quinta era do Zé e este tinha que pagar para utilizar tudo o que estava na sua quinta e trabalhava cada vez menos, mas recebia cada vez mais, pois o padrasto conseguia sempre arranjar quem lhe emprestasse dinheiro.
Mas um dia… Um dia o padrasto não conseguiu arranjar quem lhe emprestasse mais… De um dia para o outro, o Zé deixou de receber dinheiro do padrasto e teve que se ficar pelos parcos rendimentos da quinta (cada vez menores), pois já ninguém emprestava mais, visto que já ninguém acreditava que o Zé conseguisse, sequer, pagar os juros do que devia, quanto mais o capital. E o Zé viu, de um momento para o outro, os vizinhos entrarem-lhe em casa para lhe tirarem o LCD. Foi ter com o padrasto para saber que raio se passava, mas este respondeu-lhe que a coisa estava má, mas, mesmo sem o LCD, ainda estava muito melhor do que nos tempos do pai, pois ainda tinha a mota, a aparelhagem, a mobília…
Quando lhe entraram na casa para lhe levar a aparelhagem e o DVD, a resposta do padrasto foi que, mesmo assim, ainda tinha a mota, as mobílias e ainda tinha um padrasto que o deixava falar à vontade, que o ouvia, ao contrário do tempo do pai…
Entretanto, levaram-lhe a mota, mas o padrasto falou-lhe que ainda estava muito melhor que nos tempos do pai, pois ainda tinha mobília e um padrasto amigo, que o ouvia…
Num piscar de olhos o Zé ficou sem todos os luxos que tinha e já não era sequer dono do que estava na quinta. Tentou recomeçar a trabalhar, mas, desabituado como estava, já lhe custava muito mais que antes; foi falar com o padrasto, mas este separara-se da mãe e tinha tudo em seu nome, pelo que a mãe ainda ficou a viver com o Zé na casa vazia. Como não produzia o suficiente para pagar o que devia, ficaram-lhe com a quinta e com a casa: fora posto na rua e não tinha onde viver. O novo dono da quinta construiu uma barraca com uns paus mal amanhados e um telhado feito com umas chapas umas por cima das outras, sem água nem luz, e pô-lo a trabalhar de sol a sol na quinta por um salário muito baixo. O dinheiro que recebia mal dava para comer mais que uma sopa quase só feita de água e para pagar os juros da dívida. O Zé estava arruinado! Iria passar o resto da vida a trabalhar como um escravo e nunca mais podia aspirar a ter o nível de vida razoável que levava nos saudosos tempos de seu pai, onde trabalhava o suficiente para não faltar nada em casa, embora sem grandes luxos… Se ao menos ele tivesse pegado no dinheiro que o pai lhe deixara e o tivesse gasto a comprar um tractor, podia ter aumentado a produtividade da sua quinta, podia ter passado a ter uma vida menos dura e ainda podia ter feito uns biscates nos terrenos dos vizinhos para juntar algum e comprar outra quinta e arranjar trabalhadores para trabalharem por conta dele. Mas teve o azar de arranjar um padrasto que não só lhe sacou um dinheirão como o incentivou a viver à grande sem trabalhar e tudo para que ele não tivesse saudades do pai e mostrar que consigo como padrasto a vida era muito melhor do que no tempo do pai.

Até aos dias de hoje, ainda ninguém deixou de emprestar a esse país cuja história se assemelha à do Zé, mas quando isso acontecer… Nesse país, todos os Zés terão saudades do pai.

sábado, 18 de abril de 2009

Estado de direito.


No outro dia ouvi que dívidas da banca, num valor bastante avultado, tinham prescrito ou estavam a prescrever. Ouvi também que pessoas estavam para receber coimas em casa por não terem entregue a declaração de IRS, mesmo que essa entrega não servisse para nada, pois os seus rendimentos eram tão baixos que não havia IRS a pagar. Ouvi ainda Isaltino Morais a dizer que havia uma lei que obrigava detentores de cargos públicos a declarar os seus bens, mas que essa lei não era para cumprir, e que quase ninguém a cumpre. Ainda ouvi o economista Silva Lopes (e outros) a dizer que se deviam baixar os salários. Também ouvi que os partidos da oposição (porque estão na oposição) querem uma lei contra o enriquecimento ilícito, mas o PS não quer, pois é inconstitucional (e não se pode mexer na Constituição, excepto se for para malhar no bolso do povo). E ouvi que o próximo cão da Casa Branca é um cão de água português (cão de água ibérico, para os espanhóis).
O leitor estará neste momento a interrogar-se o que é que estas coisas têm a ver entre si e porquê estarem sob o título “Estado de direito”. Pois bem, apesar de umas coisas parecerem mais desfasadas do que as outras em relação ao título e entre si, a verdade é que têm tudo a ver. Analisemos cada uma delas.
No mesmo país onde uma pessoa que ganha tão pouco que não atinge, sequer, o ordenado mínimo (não sei como conseguem viver!) e onde, normalmente, esse tipo de pessoas são pessoas relativamente ignorantes no que toca à burocracia do Estado (ganham pouco, sabem que não têm que pagar IRS e nem pensam nessas coisas inúteis como a entrega de um papel que não vai servir para nada), é multada por não ter entregue um papel inútil, os bancos, devendo milhões de euros em impostos, condenados em tribunal por isso, não pagam e vão protelando as aplicações de decisões dos tribunais, por expedientes processuais (e porque têm dinheiro para advogados mais trafulhas e os montantes em causa justificam os gastos) até estas decisões prescreverem e ficam sem pagar o que devem (esses montantes deverão sem compensados, na medida do possível, pelo que vão sacando aos desgraçados pobres, ignorantes e mal informados); este é um bom exemplo do que os nossos políticos apregoam como Estado de direito democrático.
O mesmo Estado de direito que aplica uma coima a um indivíduo que tenha um pneu careca porque está na lei que não pode circular assim; que obriga a quem fez um poço, porque a administração local não lhe pôs água em casa, a pagar licenças e taxas por extrair a água num terreno que é seu, porque está na lei; que obriga quem comprou casa própria e faz sacrifícios para a pagar e pagar um IMI que é um roubo, que é uma autêntica renda ao Estado, porque está na lei; que obriga a pagar na conta da água taxas de saneamento a quem tem fossas suas e não utiliza os esgotos públicos, pagas com o seu dinheiro, porque as câmaras não tinham feito saneamento quando as casas foram construídas, porque está na lei; que obriga as pessoas com mais de uma casa a pagar por cada casa tarifas de resíduos sólidos (como se fizesse lixo nas casas todas ao mesmo tempo) ou taxas de radiodifusão numa conta da luz por cada casa que tem (como se visse mais televisão do que uma pessoa que só tenha uma casa) e que obriga os próprios condomínios a pagar taxa de radiodifusão (como se os condóminos andassem pelas escadas e elevadores a ver televisão), porque está na lei; dizia eu, que o mesmo Estado que obriga o cidadão a pagar tudo e mais alguma coisa porque assim está escrito na lei, parece que faz leis que não são para aplicar: o caso do Sr. Isaltino Morais, que não cumpriu a lei que o obrigava a declarar o que tinha, pois parece que essa lei não era para aplicar. Isto feito pelo mesmo senhor que não se deve esquecer de aplicar aos munícipes de Oeiras todas as taxas e coimas que a lei lhe permitir aplicar! Extraordinário! Mais um bom exemplo de Estado de direito!
E é também este o Estado de direito, onde certos indivíduos (entre os quais o economista Silva Lopes, ex ministro do tempo do PREC), ao mesmo tempo que ganham quantidades obscenas de dinheiro, vêm dizer cá para fora que tem que se baixar os salários (vejam bem ao que nós chegámos, já não falam de congelar, falam de baixar, eles já não querem deixar que a inflação “coma” os salários de quem trabalha – se a inflação é baixa e “come” devagar, baixem-se mesmo!) a quem trabalha para continuar a dar cada vez mais a quem não o faz (por livre vontade ou não) e reclamam contra o aumento “brutal” do salário mínimo em 24 euros, para a valor exorbitante de 450 euros (que querem estes gajos fazer com tanto dinheiro: 450 euros?? Vida de rico!! Até já vai dar para comer quase todos os dias!!).
E temos um Estado de direito que é tão de direito que, além de a justiça não funcionar, dá tantos direitos aos criminosos que até faz com que tentar apanhar alguns seja considerado, pelos senhores do poder, inconstitucional. Pois é, ninguém consegue parar a corrupção (não interessa a quem legisla, pois eles é que são a grande parte da malta corrupta e não lhes interessa fazer leis contra si mesmos), as leis são de tal forma permissivas em relação a direitos dos arguidos, a expedientes processuais para atrasar até à prescrição, a expedientes processuais para anular provas inequívocas, que chega até a ser inconstitucional legislar de forma a condenar corruptos. Então que se pode fazer? Toca a tributar a corrupção! Quem for corrupto, ladrão, fuja ao fisco, quem, no fundo, enriquece ilegitimamente, não necessita de ter problemas com receio de “ir dentro”. No fundo a fórmula é muito simples: continuem no mesmo esquema de enriquecimento ilícito, que não vão dentro; o máximo que pode acontecer é ter que pagar impostos sobre o que se ganhou, seja na droga, seja com favores, seja com tráfico de armas ou de pessoas, seja com roubos a bancos, seja com o que for. Se forem apanhados, pagam 60% do que ganharam de forma criminosa e estão perdoados (é uma espécie de venda de indulgências). Assaltos a bancos? Taxa de imposto: 60%; venda de droga? Taxa de imposto: 60%. Desclassificar zonas de reserva ecológica nacional para a construção de centros comerciais? Taxa de imposto: esta aqui ainda não sei quanto será, mas desconfio que vai ser zero! Zero, aliás, como a maior parte do enriquecimento ilícito deste país vai continuar a ser, pois eu não acredito que bons advogados não dêem a volta a isto, ou não fossem as leis feitas por juristas que as deixam sempre cheias de lacunas para que depois possam ganhar rios de dinheiro a emitir pareceres sobre o que legislaram ou a ganhar causas em tribunal à custa de lacunas da lei, quer como advogados, quer como arguidos.
Por fim, o cão de água português (ibérico para os espanhóis). Que tem o pobre bicho a ver com isto? Nada, a não ser que é mais uma tontice que se inventa para encher de orgulho a cada vez mais vazia de comida barriga dos portugueses. É mais uma tontice para desviar a atenção dos portugueses da triste realidade em que o país está mergulhado, fazendo com que sintamos um fervor patriótico bacoco, tal como outras tontarias do género como a do maior futebolista do mundo ser português, do FC Porto que conseguiu empatar contra a rica e poderosa equipa do Manchester United em Manchester, como as constantes tolices com que gostamos de entrar para o Guiness, seja com concentrações de pais natais, seja com maiores assadores de castanhas do mundo, seja com o maior pão de ló, seja com o maior bolo rei, maior feijoada, maior largada de balões, maior árvore de natal ou com outras coisas estúpidas e inúteis com que nos bombardeiam na televisão.
E entretanto, lá vai o povo arfando de orgulho por ter um cão de raça portuguesa (ibérica, para os espanhóis) na casa branca, por acaso nascido nos Estados Unidos da América, enquanto a boca vai esquecendo, por fata de dinheiro, o sabor do pão de ló que nos pôs no Guiness, a menos que outra pastelaria, para fazer publicidade, faça outro ainda maior e o distribua pelo povo pobre, roubado, gozado, dorido de morte de tanto apertar o cinto para que outros possam, em seu nome e com sacrifício, comer o caviar pago por toda a gente e mudar a frota automóvel da Assembleia da República, a fim de ter carros que poluam menos! Isto só visto!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Descubra as diferenças...


Eça de queirós, "Uma campanha alegre", Maio de 1871


Capítulo II: Os quatro partidos políticos

Há em Portugal quatro partidos: o partido histórico, o regenerador, o reformista, e o constituinte. Há ainda outros, mas anónimos, conhecidos apenas de algumas famílias. Os quatro partidos oficiais, com jornal e porta para a rua, vivem num perpétuo antagonismo, irreconciliáveis, latindo ardentemente uns contra os outros de dentro dos seus artigos de fundo. Tem-se tentado uma pacificação, uma união. Impossível! Eles só possuem de comum a lama do Chiado que todos pisam e a Arcada que a todos cobre. Quais são as irritadas divergências de princípios que os separam? - Vejamos:
O partido regenerador é constitucional, monárquico, intimamente monárquico, e lembra nos seus jornais a necessidade da economia.
O partido histórico é constitucional, imensamente monárquico, e prova irrefutavelmente a urgência da economia.
O partido constituinte é constitucional, monárquico, e dá subida atenção à economia.
O partido reformista é monárquico, é constitucional, e doidinho pela economia!
Todos quatro são católicos,
Todos quatro são centralizadores,
Todos quatro têm o mesmo afecto à ordem,
Todos quatro querem o progresso, e citam a Bélgica,
Todos quatro estimam a liberdade.
Quais são então as desinteligências? - Profundas! Assim, por exemplo, a ideia de liberdade entendem-na de diversos modos.
O partido histórico diz gravemente que é necessário respeitar as Liberdades Públicas. O partido regenerador nega, nega numa divergência resoluta, provando com abundância de argumentos que o que se deve respeitar são - as Públicas Liberdades.
A conflagração é manifesta!
Na acção governamental as dissensões são perpétuas. Assim o partido histórico propõe um imposto. Porque, não há remédio, é necessário pagar a religião, o exército, a centralização, a lista civil, a diplomacia... - Propõe um imposto.
«Caminhamos para uma ruína! - exclama o Presidente do Conselho. - O défice cresce! O País está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...»
Mas então o partido regenerador, que está na oposição, brame de desespero, reúne o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se de agonia, e cada um alarga o colarinho na atitude de um homem que vê desmoronar-se a Pátria!
— Como assim! - exclamam todos - mais impostos!?
E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico... Zás! cai o ministério histórico!
E ao outro dia, o partido regenerador, no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais, as transacções diminuíram mais, a opinião descreu mais, a moralidade pública abateu mais - mas finalmente caiu aquele ministério desorganizador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando.
Abre a sessão parlamentar. O novo ministério regenerador vai falar.
Os senhores taquígrafos aparam as suas penas velozes. O telégrafo está vibrante de impaciência, para comunicar aos governadores civis e aos coronéis a regeneração da Pátria. Os senhores correios de secretaria têm os seus corcéis selados!
Porque, enfim, o ministério regenerador vai dizer o seu programa, e todo o mundo se assoa com alegria e esperança!
— Tem a palavra o Sr. Presidente do Conselho.
— O novo presidente: «Um ministério nefasto (apoiado, apoiado! - exclama a maioria histórica da véspera) caiu perante a reprovação do País inteiro. Porque, Senhor Presidente, o País está desorganizado, é necessário restaurar o crédito. E a única maneira de nos salvarmos...»
Murmúrios. Vozes: Ouçam! ouçam!
«...É por isso que eu peço que entre já em discussão... (atenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão - o imposto que temos a honra, etc. (apoiado! apoiado!)»
E nessa noite reúne-se o centro histórico, ontem no ministério, hoje na oposição. Todos estão lúgubres.
— «Meus senhores - diz o presidente, com voz cava. - O País está perdido! O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder, e doze horas depois já entra pelo caminho da anarquia e da opressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o País a esta última desgraça! - Guerra ao imposto!...»
Não, não! com divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A ratoeira.

Um rato, olhando por um buraco da parede, vê um lavrador e a sua mulher a abrir um pacote. Pensou que tipo de comida poderia conter.
Ao ver sair do pacote uma ratoeira, correu ao pátio a avisar o resto da bicharada da quinta.
Foi ter com a galinha, que lhe respondeu que compreendia que aquilo podia ser um grande problema para o rato, mas para ela aquilo não a incomodava nada, que não a prejudicava.
A seguir foi ter com o porco, que lhe respondeu da mesma maneira, acrescentando que se lembraria do rato nas suas preces.
Por último, foi ter com a vaca, que ironizou “Uma ratoeira? Crê que estou em perigo?”.
O rato voltou à toca cabisbaixo e triste, por ninguém se importar verdadeiramente com ele, não conseguindo obter mais que umas preces do porco.
Naquela noite ouviu-se, de repente, o som da ratoeira em acção e a mulher do lavrador levantou-se, quase às escuras, para ver o que se passava. Mas quem tinha sido apanhado na ratoeira tinha sido uma cobra venenosa e não o rato. Na semi obscuridade, e não estando a mulher a contar com uma cobra em vez de um rato, a mulher foi picada pela cobra e teve que ser levada rapidamente para o hospital.
Quando voltou, estava com muita febre, o que recomendava uma canja de galinha; o agricultor pegou na sua faca afiada e foi providenciar o ingrediente principal…
Seguidamente, a mulher piorou, o que fez com que muitos amigos e familiares a viessem visitar; para dar comida a tanta gente, o lavrador matou o porco…
Como a mulher piorou ainda mais e acabou mesmo por morrer, veio muita gente ao funeral, pois esta era uma pessoa muito querida na terra; para alimentar ainda mais gente, o lavrador matou a vaca…
Isto para dizer que não há problemas que não nos dizem respeito, pois a verdade é que quando há uma ratoeira na casa toda a quinta corre risco; que no nosso país e no nosso planeta o problema de um, é o problema de todos. E que enquanto os políticos viram o povo um contra o outro, as classes umas contra as outras, as profissões umas contra as outras, os professores, os polícias, os juízes, os magistrados, os padres, os funcionários públicos, os médicos, os enfermeiros, os farmacêuticos, os notários, os estudantes, etc., uns contra os outros, para poderem prejudicar toda a gente e ninguém se importar (pois não é nada connosco), é importante que tomemos consciência que tudo o que é criar uma ratoeira para um é criar uma ratoeira para todos e não devemos dizer, com uma recalcada inveja dos outros e olhando só para o nosso umbigo, “que é bem feito”, pois a próxima ratoeira será posta para nós e a resposta dos outros será a mesma que a gente deu. E que temos que lutar todos juntos contra as ratoeiras que nos continuam a pôr todos os dias e acabar com o saque a que nos sujeitam constantemente para sustentar as clientelas políticas e temos que deixar de ter vergonha de dizer “NÃO!” .
Pois, como dizia o poeta russo Maiakovski (1893-1930) antes de ser assassinado após a revolução de Lenine:

Na primeira noite, eles aproximam-se
e colhem uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam o nosso cão.
E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra
sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,
e, conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

Depois de Maiakovski houve aplicações às várias realidades…

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei
Agora estão-me a levar
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertold Brecht (1898-1956)


Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e levaram-me;
já não havia mais ninguém para reclamar...
Martin Niemöller, 1933 - símbolo da resistência aos nazis.


Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima,
Depois incendiaram os autocarros, mas eu não estava neles;
Depois fecharam ruas, onde não moro;
Fecharam então o portão da favela, que não habito;
Em seguida arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho...
Cláudio Humberto, 2007
Não podemos continuar de braços cruzados a assobiar para o lado, como se não fosse nada connosco. Temos que tomar as dores de morte dos outros como nossas.

sábado, 28 de março de 2009

É urgente um novo partido.


Já ninguém acredita em Sócrates. Já todos os portugueses sabem que é uma pessoa incapaz de dizer a verdade seja em que ocasião for e que a sua política é desastrosa como se tem visto e ainda mais desastrosa para o futuro, mas aí, quando o desastre chegar, já nem lhe hão-de atribuir a culpa por alguns dos desastres causados (por exemplo, como já referi várias vezes, o desastre da educação, que só se irá sentir já alguns anos depois de ele se ir embora). Já ninguém acredita em Sócrates, nem mesmo quem, por interesse, o apoia e vota nele. Mas as alternativas à direita também não convencem ninguém. Manuela Ferreira Leite não convence ninguém, nem se vislumbra ninguém naquele partido que possa valer alguma coisa. O CDS é a mesma coisa: o CDS é Paulo Portas e este perdeu a credibilidade por ter feito parte de um governo que fez mais ou menos a mesma coisa que o governo do “eng.” Sócrates. Com isto, com a falta de credibilidade da chamada direita, Sócrates entra no eleitorado destes dois partidos (das pessoas desta área ideológica que ainda se dão ao trabalho de ir votar), pois muita gente de direita já nem sabe o que há-de fazer. Como já disse noutra crónica, muita gente, em protesto com isto tudo, vai votar precisamente na pior opção: na extrema-esquerda. Isto faz com que os votos em Portugal não representem minimamente a ideologia da maior parte da população e faz com que os governos governem à esquerda e cada vez mais à esquerda e levem Portugal para o abismo. As pessoas estão cansadas desta gente, os partidos são ninhos de criar políticos, a gente que anda agora na política são meninos que são políticos desde pequenos, que dominaram as juventudes partidárias e entraram na política sem nunca terem feito nada na vida, são pessoas que não sabem nada de nada e que a primeira profissão deles foi serem deputados, vereadores, chefes de gabinete deste ou daquele político mais velho, são pessoas que sempre viveram da e para a política e que nunca viveram a realidade do país, que não sabem nada de nada e não estão preparados para mandar em nada porque não sabem nada e, a maior parte deles, não valem nada, sendo apenas uma corja de bajuladores. E quando falo desta malta sem qualquer valor que anda pendurada na política, também já falo do bloco de esquerda que, mal começou a ter alguma representatividade na Assembleia da República, foi logo invadido por meninos betos e de boas famílias armados em rebeldes. A acrescer a tudo isto, temos uma comunicação social que não só cala quem tiver ideias que destoem das tolices generalizadas nas mentes dos portugueses desde a escola primária desde o 25 de Abril, como ainda as ataca, rotulando as pessoas, preconceituosamente, de racistas, xenófobas, fascistas, de extrema-direita, ou seja, quem não concordar com as ideias que nos têm levado para o abismo, leva logo com um rótulo que ninguém quer ter; e ninguém desta área ideológica pode ir para a televisão defender o que quer que seja, seja por medo ou por não ser mesmo convidado, ou até porque as suas palavras são tiradas do contexto em que foram ditas e repetidas até à exaustão. Como exemplo destes rótulos, eu lembro aqui que vários partidos de direita, como a frente nacional de Le Pen, em França, ou o partido de Haider, na Áustria, são sempre chamados na comunicação social como partidos populistas, racistas, xenófobos, fascistas ou de extrema-direita. Mas quem é a comunicação social para rotular partidos? Eu nunca ouvi rotular desta maneira partidos de extrema-esquerda, ou rotular, por exemplo, o partido de Sócrates como o partido do mentiroso…
Continuando, Portugal está entregue a gente que não vale nada e não sabe nada e, no meio disto (ou por causa disto) as pessoas deixaram de ir votar ou passaram a votar em partidos que elas próprias sabem que não prestam e que não defendem verdadeiramente os interesses do país, fazendo-o apenas como protesto. Quem for para a rua falar com as pessoas verá que as pessoas falam e pensam de maneira completamente diferente da que os políticos, da esquerda à direita, falam na televisão. As pessoas já não acreditam em ninguém daquela gente, daquela gente que continua a mamar na “grande porca” que é a política. E quando vão votar, votam mal, porque não há um partido que represente verdadeiramente o pensamento dos portugueses. E porque esse partido, se existisse, não teria voz na comunicação social (ou seria mesmo atacado – quem não se lembra do cartaz do PNR no Marquês de Pombal, em Lisboa, que foi, primeiro, vandalizado e depois proibido?), ou seria rotulado com nomes horríveis ou seria apresentado como um partido que não tinha hipóteses e que votar nele era estragar um voto, como se o voto num dos outros partidos valesse mais do que um voto num partido desses. Enfim, eles até já são senhores do nosso voto, influenciando-nos com a ideia de que o nosso voto vale ser for neste partido, mas não vale se for no outro.
Mas nós precisamos de um verdadeiro partido de direita, um partido que não seja apenas conservador nos ideais, mas que não seja liberal, que não defenda o capitalismo selvagem e a privatização de tudo e mais alguma coisa. Um partido que defenda que sectores fundamentais para o desenvolvimento e soberania do país (água, electricidade, saúde, segurança, estradas, educação, segurança social, uma empresa petrolífera, um banco e outras coisas mais) devem estar nas mãos do Estado; um partido que combata verdadeiramente o crime, quer com leis como deve ser, quer dando autoridade às polícias; um partido que defenda a classe média, incentive o trabalho e a poupança, e desincentive a indigência e o “chupismo”; um partido que ponha nas chefias da função pública e das empresas públicas pessoal de carreira que suba pelo mérito e não pela cor do cartão partidário; um partido que corra da política esta escumalha que por lá anda e que leve para lá pessoas com mérito; um partido que impeça o saque a que os dinheiros públicos estão sujeitos e que ponha esta corja de ladrões e vigaristas e corruptos todos na prisão e que não deixe os casos de corrupção em Portugal todos arquivados ou prescritos, havendo provas de delitos que não são validadas por meros expedientes processuais; um partido que não esteja todos os dias a inventar maneiras de sacar dinheiro às pessoas por tudo e por nada; um partido que não faça as pessoas pagarem exorbitâncias (autênticas rendas ao estado, por vezes) por terem algo de seu; um partido que dê educação aos jovens, que dê autoridade aos professores e que não fomente a reprodução de ignorância (nomeadamente com o fazer com que todos avancem no ensino sem saber nada ou as novas oportunidades); um partido que ponha ordem na justiça e na legislação fiscal, que acabe com os excessivos direitos dos criminosos e que faça com que a justiça funcione em tempo razoável; um partido que tenha governantes que servem o país e não se sirvam do país, andando aqui a tratar o povo por lorpa; um partido que construa hospitais e centros de saúde em vez de estádios de futebol; um partido que arranje estradas em vez de fazer rotundas; um partido que construa lares para idosos e esquadras de polícia em vez de grandes edifícios novos para as câmaras municipais se instalarem; um partido que ajude e financie quem quer ter filhos e não consegue em vez de ajudar e financiar abortos. No fundo, um partido que faça aquilo por que todos os portugueses anseiam e falam, mas que não existe, porque as pessoas têm medo de ser prejudicadas nas suas vidas se aderirem ou fundarem um partido que mexa assim com os interesses instalados. Mas, ao mesmo tempo, um partido que tenha credibilidade junto das pessoas, que não seja constituído por indivíduos mais ou menos trogloditas, de cabeça rapada e botas da tropa, que apenas dão mau nome e má imagem a qualquer partido, por mais sério que ele seja; porque a verdadeira direita é constituída por pessoas simples e por intelectuais e não por trogloditas, que é sempre a imagem que a comunicação social tenta passar dos partidos de direita. Porque a verdadeira direita não necessita de ser antidemocrática (como a extrema-esquerda o é) e não é antidemocrática. Porque um partido constituído por gente de bem, inteligente e que sirva o país, não necessita de ser antidemocrático, pois o bom governante saberá ser amado e o povo reconhecê-lo-á. E não há que ter medo de eleições. Medo têm os que lá estão, do dia em que um partido de direita assim, que não se deixe contaminar por gente vinda do actual poder nem de meninos que queiram a ele aderir desde pequeninos, chegar ao poder e usar esse poder para o bem do país e das pessoas e não de si ou das clientelas políticas. Eles têm medo de um partido que acabe com os tachos e com as regalias de uma cambada que vive com altíssimos salários e rodeada de mordomias (carros, telemóveis, cartões de crédito, etc.), enquanto se fala de baixar os salários às pessoas.
Era de um partido assim que Portugal necessitava. E é um partido assim que as pessoas, sebastianamente, aguardam e que há-de surgir um dia. E nessa altura, serão os sem mérito, que vivem do saque ao povo, que terão dores de morte!

sexta-feira, 13 de março de 2009

O crescimento da esquerda.


Não é novidade para ninguém que vivemos uma grave crise económica e financeira mundial. O capitalismo selvagem levou um forte abalo e as pessoas sentem na pele a crise e muitas descrêem agora do casino que era muito deste capitalismo, onde as pessoas eram possuidoras de riqueza que não existia, era tudo riqueza especulativa, as coisas não valiam de facto o que se dizia que valiam, e toda a gente vivia acima das suas possibilidades, iludindo-se que era rica. Isto é também o que acontecia em Portugal: o crédito fácil e barato e o dinheiro que chegava lá de fora (e ainda há muito a chegar, atenção!) dava às pessoas a ilusão de que eram ricas ou remediadas, em vez da realidade de que são remediadas ou pobres (isto a maioria, pois uns tinham a ilusão de que eram estupidamente e obscenamente ricos e afinal eram só ricos ou muito ricos, pois as suas fortunas esfumaram-se na bolsa). Viveu-se, portanto, a ilusão (muito incutida pelos meios de comunicação social, que iludem os mais novos) de que Portugal, após o 25 de Abril, ficou mais rico e mais próspero e que recuperámos do atraso em que o Estado Novo nos mergulhou (como se o atraso tivesse sido causado pelo Estado Novo e não fosse um atraso crónico, que existe desde que Portugal é Portugal). Nada mais falso, como pode constatar agora qualquer pessoa minimamente inteligente ou que não seja intelectualmente desonesta. Podemos constatar que tudo, desde o 25 de Abril, foi uma ilusão que se viveu, onde vivemos constantemente acima das nossas possibilidades dando assim a sensação de que estávamos melhores, primeiro à custa do imenso ouro que Salazar nos deixou (era a 3ª maior reserva de ouro do mundo), depois dos fundos do FMI, depois dos fundos da União Europeia, e ainda do recurso ao crédito e endividamento no exterior, que algum dia terá que ser pago.
Ora, quando o país vai para o buraco interessa defender a “seita” que o parasita, importa defender o regime, importa convencer o povo (sobretudo os mais jovens, pois os mais velhos viveram no tempo de Salazar e sabem bem que isto são quase tudo mentiras – daí vir a velha máxima, a de que são velhos e, portanto, saudosistas, como se fosse possível ser-se saudosista de um tempo mau e de sofrimento) de que isto até nem está bem, mas antes era tudo muito pior, que era uma sardinha para 3 (quem não ouviu esta história repetida até à exaustão), o que nos leva a pensar que antigamente as famílias eram todas constituídas por múltiplos de 3, ou que se vendiam terços de sardinhas (“olhe, dê-me aí uma sardinha e um terço de outra, pois a minha família tem 4 pessoas!” – “sim senhor, quer a parte da cabeça ou do rabo?” – “dê-me a do meio, que tem mais carninha”), que não se podia falar (como se hoje pudéssemos – alguém tente escrever alguma coisa contra o governo e vai ver onde se mete, se não leva processos disciplinares ou processos em tribunal), que o povo era muito ignorante (vejamos quem construiu a maior parte das escolas de hoje, comparemos o ensino rigoroso de então com a rebaldaria e “reprodução de ignorância” de hoje, e vejamos, sobretudo, o que era o ensino antes do Estado Novo, para vermos se o objectivo da época era a ignorância ou se, pelo contrário, se partiu do estado zero para a construção de escolas, universidades, ensino rigoroso, ou seja, se o investimento no ensino em Portugal não foi o maior de sempre), e outras baboseiras, muitas delas contadas com anacronismos gritantes, acusando o Estado Novo de coisas que, de facto, hoje são impensáveis (sobretudo ao nível da moral), mas que na altura eram assim em Portugal e eram assim em todo o mundo; mas que era assim em todo o mundo não se fala.
Enfim, os portugueses que cresceram depois do 25 de Abril são bombardeados com mentiras pelos nossos governantes e pela comunicação social e não se imaginam a viver no mundo que lhes é contado, quando comparado com o mundo de ilusão em que viviam e, quando o mundo de ilusão se desmorona, é preciso denegrir o Homem que personificava o Estado Novo (fazem-se séries de televisão fantasiosas ou põem-se indivíduos que nunca privaram com ele a dizer como é que ele era na intimidade, no dia a dia), denegrir o Homem que tinha dois contadores da luz no palácio de S. Bento – um para a zona oficial, pago pelo Estado, e outro para a zona onde vivia, pago por ele (alguém acredita que hoje em dia ainda é assim?) – o Homem que se mandasse o carro oficial fazer-lhe um recado pessoal dava dinheiro dele ao motorista para que pusesse gasolina no carro, o governante português mais sério que existiu, um dos poucos governantes da história de Portugal que mandou no país durante cerca de 40 anos e morreu, não diria pobre, mas com a quinta do Vimieiro e nada mais (comparem-no com esta malta que lá anda, que ao fim de meia dúzia de anos estão riquíssimos e, muitos deles, envolvidos em escândalos de corrupção – como eu os compreendo no medo que têm ao Salazar, que é um péssimo exemplo para eles e que os não deixaria andarem no saque ao erário público em que andam).
Mas, quando se poderia (e deveria) ver a verdadeira direita a subir (que, no fundo, é grande, como se viu, por exemplo, quando Salazar ganhou o concurso do “maior português de sempre”), eis que se nota que as pessoas de direita continuam iludidas com o CDS e o PSD (que não são quem nos representa), que se vê o centro fugir para o PS e se assiste, pasme-se!, ao crescimento da extrema esquerda. Claro que eu posso compreender um pouco essa tontice por parte dos mais jovens, que não são bombardeados com as verdades do que se passou após o 25 de Abril, com o que a esquerda fez e com o que tentou fazer e não conseguiu, como o são com as mentiras que se contam do Estado Novo e que, a maior parte das vezes, anda alienada do que se passa na sociedade e ignorante e incapaz de pensar em coisas que não sejam futilidades (como telemóveis, música rock, roupa de marca ou da Zara, cinema de pancadaria, álcool ou drogas), acha que tem amigos numa esquerda que defende algumas das suas tontarias próprias da idade, mas que se chegasse ao poder mais não faria do que terminar com tudo o que os jovens apreciam na sua futilidade. Alguém acredita que o comunismo (seja ele estalinista, maoista, trotskista, castrista ou outro qualquer mais ou menos radical) deixaria a juventude entregue aos charros, à roupa de marca ou da Zara, aos telemóveis topo de gama ou outra coisa qualquer que o capitalismo proporciona aos jovens e que jamais houve em qualquer país comunista? A juventude havia de ir viver para Cuba algum tempo (viver e trabalhar, não é levar vida de turista, como a que leva lá quem para o ocidente vem gabar Cuba) ou para a Coreia do Norte passar fome, para ver o que o comunismo ou a extrema-esquerda lhes dá! Os jovens que andam aí armados em rebeldes e defensores das teorias económicas utópicas dessa gente, nomeadamente bloquista, haviam de poder por em prática num qualquer recanto do mundo aquilo que esses senhores defendem, para ver ao fim de quanto tempo estavam a passar fome e a tentar fugir para um país capitalista (e atenção, eu não sou, e posso-me gabar de nunca ter sido, defensor do capitalismo selvagem e neo-liberal).
Mas o que eu não consigo compreender é que muita gente, como voto de protesto, alinhe em votar em partidos que não são defensores dos seus ideais. As pessoas que não concordam com o estado a que o país está a chegar por causa dos dois maiores partidos, ao fazerem um voto de protesto na extrema-esquerda, estão a levar esses tontos que nos governam a pensar que o povo está a virar à esquerda e tendem a tomar cada vez mais medidas de esquerda que apenas levam à ruína do país. Porque é claro que toda a gente acha que os trabalhadores deviam ganhar mais, que deviam ter mais direitos, que as empresas deviam pagar mais impostos, etc., etc., etc.. Mas as coisas não podem ser feitas assim só porque isso é justo. Porque no mundo globalizado em que vivemos, esse tipo de medidas impostas por governos, apenas levaria a que as empresas se deslocalizassem para países onde os trabalhadores têm menos direitos e os impostos são mais baixos. E essas medidas demagógicas e utópicas que esses partidos propõem apenas levariam a um desemprego cada vez maior por via da deslocalização e de falências de empresas que não conseguiriam competir com a concorrência exterior.
Portanto, não é certo nem é viável uma viragem à esquerda e é terrível assistir ao crescimento de quem apenas nos levaria à miséria. É errado fazer-se um voto de protesto em quem apenas diz “esfola” a quem nos quer matar. E assistir a isto, causa-me dores que, mais do que de morte, são de esfolar vivo. Porque é urgente que esse voto de protesto seja feito num partido de direita que leve o país para o caminho certo. Pena é que, neste momento, esse partido não exista… Mais vale votar num pequeno partido de direita que já exista (mesmo não sendo o ideal, mesmo não sendo o verdadeiro representante da ideologia da generalidade dos portugueses ou não seja integrado apenas por gente decente), a ver o que dá.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Governo muito mediocre.

Qualquer pessoa que não viva à conta desta desastrosa governação, sabe avaliar os três primeiros anos de governação de José Sócrates como um governo mau. Claro que há cada vez maior quantidade de gente que vive do saque do erário público (os camaradas de partido, que aplaudiram calorosamente o primeiro ministro mais mentiroso e teimoso na asneira de que há memória em Portugal e a malta do rendimento mínimo e outros subsídio dependentes – agora também grandes especuladores bolsistas, pelos vistos) e esses acham que está tudo muito bem (vamos ver é quanto tempo mais isto vai aguentar com cada vez menos gente a trabalhar e sobrecarregada de impostos e cada vez mais gente a viver à custa destes).
Mas eu nem quero agora aqui falar dos primeiros três anos de governação, em que as sucessivas descobertas de mentiras, aldrabices, trafulhices do nosso primeiro-ministro (o seu “curso de engenharia”, o não aumento de impostos, a destruição do sistema nacional de saúde, sobretudo no interior, os 150 mil novos empregos, etc.), foram sempre disfarçados com um magro crescimento, fruto do arrastamento da economia portuguesa pela economia internacional (as políticas de Sócrates em absolutamente nada contribuíram para isso, v.g. a desastrosa política de educação que torna os portugueses cada vez mais mal preparados, a continuação de uma justiça que não funciona, o não desagravamento do IRC, a instabilidade fiscal, enfim, coisas que poderiam incentivar realmente a economia e não o seu paleio oco e falso), e por uma teimosia que as pessoas, habituadas aos governos desde 1995, confundiram com firmeza, com reformismo e com competência. No entanto, realmente o que se assistiu em Portugal nesses primeiros 3 anos foi a destruição do ensino público; a destruição do sistema nacional de saúde; muita propaganda em relação ao simplex e ao choque tecnológico, que, na realidade, deixaram quase tudo na mesma; uma revisão do código de processo penal com o fim de reduzir os gastos do Estado com a prisão de criminosos e que gerou um descontrolo do crime em Portugal, a ponto de este se tornar num paraíso criminal que atrai criminosos de todo o mundo, que sabem que aqui nunca vão presos; um ataque à classe média; um ataque aos professores, aos polícias ou a quem quer que trabalhe e que queira ter algo de seu, o qual, apesar de fruto do trabalho, do sacrifício e da poupança, é tributado como se não fosse de quem tem ou construiu as coisas mas como se estas pertencessem ao Estado; um cada vez maior número de tachos principescamente remunerados para os amigos; a manutenção de uma cada vez maior classe de parasitas do rendimento mínimo, a quem tudo lhes é dado e nada lhes é exigido, e que se continuam a reproduzir, a ponto de já se afirmar que em 2030 as reformas serão 50% dos vencimentos, tal será a quantidade de indigentes que viverão à custa do rendimento mínimo ou do roubo e a cada vez menor quantidade de gente a trabalhar; uma instabilidade fiscal que espanta com violência o investimento estrangeiro, que não sabe nunca com o que pode contar a nível fiscal em Portugal (vi há pouco tempo um programa na televisão em que um entrevistado mostrava em molho de papéis de algumas duzentas páginas, e que eram as alterações fiscais do último mês e, segundo ele, aquilo era a média por mês que saía de alterações à fiscalidade em Portugal, ao que ele perguntava se, em primeiro lugar, era possível alguém saber a legislação fiscal, e em segundo lugar se aquilo era de um país que pudesse ser atractivo em relação ao investimento estrangeiro, com tanta alteração e com um grande risco de se investir hoje perante um quadro fiscal e este ser alterado já para o mês que vem); um ministro da economia que decretou o fim da crise e que teve o desplante de ir para a China dizer para investirem em Portugal, pois aqui temos mão-de-obra barata; uma propaganda enorme em torno da distribuição do Magalhães, anunciado como um computador português e que não é português, numa escolha de um computador sem concurso público, um computador que, segundo consta, afinal não é distribuído, excepto nas escolas onde o primeiro-ministro vai, e um computador que, tal como Medina Carreira diz, “enquanto aqueles computadores não se avariarem todos, não haverá sossego nas aulas” (e que fez ainda o primeiro-ministro fazer uma figura ridícula na cimeira ibero-americana, ao fazer de delegado comercial de uma empresa portuguesa que monta componentes vindos de fora e que, pelos vistos, andou a fugir ao fisco…); etc., etc., etc.
Mas, como já disse acima, nem quero falar destes três anos: quero falar destes últimos 6 meses, em que o governo atingiu um nível impensável, de tão medíocre, de tão baixo, tão baixo… Sócrates, com o seu habitual descaramento, começou por dizer que íamos passar ao lado da crise, que não íamos entrar em recessão, fez um orçamento fantasioso criticado por todos mas teimou e foi em frente (como é óbvio, teve que o mudar logo em Janeiro); depois lançou foguetes quando o INE veio dizer que o crescimento da economia no 3º trimestre era 0%, pois os outros países estavam já a decrescer (afinal, correcções feitas, era -0,1% – aqui não disse mais nada); depois calou-se quando entrámos em recessão; depois veio dizer que a culpa disto tudo era do estrangeiro; depois, em Fevereiro, perante o encerramento maciço de empresas em Portugal no mês de Janeiro (70 mil portugueses perderam o emprego em Janeiro, fora os que estão com salários em atraso e os que viram os seus ordenados baixarem por causa do lay-off), veio lançar foguetes por causa da taxa de desemprego em Portugal no último trimestre de 2008, que não era tão má como isso; depois veio lançar uma manobra de diversão, tirando da cartola o casamento dos homossexuais (lei que tinha impedido de ser aprovada, com disciplina de voto, há um ano atrás), como se isso fosse uma prioridade (ou como se isso fosse, sequer, bom) ou como se alguma coisa tivesse mudado no último ano que devesse ser rejeitada na altura e aprovada agora; depois vem com mais histórias de “dar mais aos que mais precisam”, ou seja, vai continuar com o saque à classe média para continuar a dar mais a quem não quer trabalhar (agora fala em bolsas de estudo aos mais pobres até ao 12º ano), ou seja, continua-se a arrogar, cada vez mais, no direito de fazer do meu dinheiro aquilo que lhe apetece, tirando-mo para dar a pessoas que eu não conheço, sem sequer me perguntar se eu quero dar esse meu dinheiro, ou sem sequer me deixar dar o meu dinheiro, ganho com o meu suor, a quem me apetecer – não, ele pega no meu dinheiro e dá-o aos que mais precisam, que, obviamente, é quem ele decide que precisa mais, podendo até ser a um jovem licenciado do PS que necessita de ganhar 3 ou 4 mil euros por mês, ou a um cigano qualquer que ontem até me tenha ameaçado a mim ou à minha família; no meio disto tudo, tem andado a dizer que pôs as contas públicas em ordem, quando continuámos sempre com défices e para 2009 este vai disparar outra vez (mais 3 anos a apertar o cinto); e faz-se de vítima no caso “freeport”, quando já toda a gente está a ver que o homem está metido naquilo até ao pescoço (enfim, são mentiras documentadas que inventaram contra o senhor, tal como o caso do curso dele, tal como a história mentirosa de que ele alguma vez disse que ia criar 150 mil novos empregos ou que não ia aumentar os impostos, ou outras…).
Ou seja, perante a fragilidade dos partidos à sua direita e perante os tontos que, como voto de protesto, se viram para o bloco de esquerda (sem pensarem que isso não nos defende, antes nos atira ainda mais para o charco, pois políticas de esquerda levam ainda mais para a fuga de investimento estrangeiro, para falências em Portugal e para o desemprego), Sócrates chega-se ainda mais para a esquerda e faz ainda mais asneiras, continuando uma política de gastos públicos e endividamento, gastando quanto tem e quanto não tem em despesa não produtiva (o tal dinheiro para os que mais precisam, o TGV, que nem com a economia e o mundo assim o fazem recuar, o aeroporto, etc.) soltando asneiras e mentiras para todo o lado, na tentativa de não perder muitos votos para o bloco e fazendo cada vez mais políticas que se confundem com as políticas do bloco de esquerda. Enfim, levando-nos para o descalabro económico e social.
Infelizmente, têm sido estas as políticas de Sócrates nos últimos 6 meses e são estas as que se avizinham, pelo menos, até às próximas eleições: políticas e viragem ainda mais à esquerda e consequências catastróficas para o futuro do país, mas com direito a tirar dividendos nas próximas eleições. Mas a nossa democracia assenta nesta base: não interessa se vamos pagar muito caro isto que fazemos agora, o que interessa é ganhar as eleições e perpetuarmo-nos no poder, para garantir o nosso saque e o saque dos “nossos”. Triste democracia a nossa e triste futuro vamos ter enquanto gente deste nível nos governar…
Por fim, para que não digam que tudo são más notícias, de vez em quando também chegam algumas notícias boas e que me aliviam as dores de morte de que padeço: Nino Vieira, presidente da ex-província ultramarina portuguesa Guiné-Bissau, foi abatido à catanada e ao tiro.